quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 14 de maio de 2011.

Buenos Aires, 14 de maio de 2011.


Começando a me apaixonar por Buenos Aires. Paixões não são mais tão imediatas nem tão efemeras para mim. E assim,  como uma situação de ser e estar, encontro-me no maior dos gerundios – estou me apaixonando por essa cidade. A cada caminhada uma descoberta. Hoje criei coragem – todo dia tenho tomado uma dose, para sair nesse frio. As manhãs têm feito 16 graus e as noites, mais ou menos, 10. Eu, que amo calor, sol, e que não gosot de usar muita roupa, estou aprendendo a gostar. Tenho que.

Fui almoçar e decidi procurar a exposição La Torre de Babel de Livros, que meu irmão me indicou. Já havia passado pela Praça San Martín, mas não adentrei. Faça-o quando vier aqui. É simplesmente linda. Muito grande e cheia de árvores. E é lá que a artista Marta Minujín construiu a torre com mais de 20 mil livros. Embora seja a céu aberto, é preciso marcar um turno – como dizem aqui, para visitar. Magnifica a estrutura. Com uma doação feita principlamente pelas Emabaixadas e outra parte pela população, a instalação é uma comemoracão pelo título que Buenos Aires tem de Capital do Livro em 2011.  

Em frente a obra, acontecia um grande concerto de tango. Uma orquestra entoava lindos tangos, muitos clássicos e milongas. Finalmente conseguí distinguir a sonoridade. O Tango típico é composto por um violão e o cantor. Com o passar dos tempos foi agregado o bandaleon, instrumento de origem alemã, e mais adiante, outros instrumentos como piano, violino etc. O Tango é mais intenso, tem sua tragédia, mas tem uma doçura encantadora. A Milonga por sua vez é mais graciosa, dançante e me lembrou muito o Maxixe (uma variação do Samba). A Milonga é para  dançar mesmo. Linda! Então nesse palco a orquestra apresentou por mais ou menos duas horas. O público estava enlouquecido, e um silêncio quase de Tourada. Então como não se apaixonar? Uma praça Linda, uma orquestra, um exposição. De graça. 

Buenos Aires, 13 de maio de 2011.

Buenos Aires, 13 de maio de 2011.


Agora sete dias completos aqui. A melancolia chega. Pensar: O que estou fazendo aqui longe? Vejo um e-mail sobre as coisas mais lindas que minha mãe escreve, lembro que esse é mais um dia de muitos que hão de vir. Me despeço mais uma vez. Giovana voltou para o Brasil e volto a ser minha companhia mais constante. Desci para conversar com Pablo, ou Pablito, agora. Falamos sobre saudade – tenho ensinado muito essa palavra aqui, realmente a palavra mais importante que temos. Converso muito com o pessoal que trabalha no hostel, são as pessoas mais próximas que tenho aqui e o carinho é de amigo, família mesmo. Falamos de música, Brasil, Argentina e vida. Um beijo no rosto de bom dia ou boa noite. Hoje pela manhã, Pablito estendeu a mão e me deu o ombro. “Quando se sentir sozinha, venha para cá e não se sentirá mais. Estamos aqui sempre.” Do sentimento pulsante quase cortante, fez-se o alento, todo o carinho.

Ontem fui ao lugar, talvez o mais legal daqui até agora. Boliche de Roberto. Fica no bairro de Almagro, un poquito lejo de onde estou vivendo. Mas valeu cada minuto da espera do ônibus. As companhias era Giovana e Mike, o australiano, músico, que está aqui para ficar dois meses. Aceitaram a sugestão que foi dada pelo meu irmão e fomos. Um lugar muito pequeno, cheio, umas três ou quarto mesas e um mini palco. Prateleira até o teto já bem velho, hospeda garrafas mais antigas ainda, empoeiradas. Desde o princípio um lugar familiar para mim – cara de bar mesmo, desses que escondem na Belo Horizonte ou como a Bodeguita del Medío. Até então nem sinal de tango. Todo muito espremido. 90% homem, fazendo parecer um jogo de futebol – alias passava um jogo na tv. Mas eis que chega o cantante acompanhado de um homem com violão. E foi assim que se fez a noite. O senhor de uns 60 anos soltou uma milonga. Não se ouvia um respiro do público. Hipnotizados ficamos. Todos, eu disse todos, estavam com cara de contemplação. Cada milonga mais maravilhosa que a outra, entoada da forma mais pura e sincera que já vi. Quando ele cantou Por una cabeza todo mundo cantou junto… sussurrando. Eu volto lá toda quinta-feira sem o menor problema. Praticamente decidi que lá será meu porto musical aqui. Uma cerveja e fechamos a conta.


P.s: Chegando em “casa” hoje, Sebastián me pergunta como foi o dia. Eu respondo que foi bom, mas que não encontrava casa para morar. E ele responde: “Fue bueno, más estoy en casa”. Animate, Maria.

Buenos Aires, 12 de maio de 2011.


Buenos Aires, 12 de maio de 2011.

Madrugada de quarta-feira. Chegando ao sétimo dia na capital Argentina. Tempo curto, mas desde quando mede-se a saudade e o sentimento entrelaçado de uma vida? Não, não se mede, não pesa, não se define. Enfim, hoje foi um dia de chorar, de sentir falta dos meus, de ler um ponto e o coração apertar. Enfim, sem fortaleças, encontro-me no “meio do mundo” sem estar sozinha. Impossível estar.  Mais um dia, mas uma manhã linda, mais de vários dias que virão.

O plano é conhecer Buenos Aires calmamente. Imagino que quando comecei a andar, a falar, talvez o medo e a excitação fossem presentes. Revivo essa sensação desconhecida agora. Ontem fui desbravar o bairro Recoleta. Desbravar é muita pretensão, já que não foram passos tão longínquos. De qualquer forma já deu para vislumbrar o que é. E é lindo. Praças enormes, muito verde, muitas construções maravilhosas. Não me acanho em adjetivar tanto nesse momento. Quando você dá de cara com o prédio da faculdade de Direito e Ciências Sociais faz os olhos encherem de brilho. Quase Grécia (que incrível eu comparar com lugares que nunca fui, pero a televisão, filmes, livros, fotos, estão aí para isso mesmo, né?!).  Ao lado do prédio está o Parque das Nações Unidas. Uma flor de metal imensa – imensa mesmo, está ao meio. Uma flor que se movimenta. Abre às 8h da manhã e fecha as “pétalas” ao anoitecer. Cada passo é uma história. Uma memória. A lembrança dos anos de ditadura militar Argentina estão em todo lugar. Mais a frente, o Museu Nacional de Bellas Artes. Lá a gente fica arrepiado mesmo. 

Fiquei pensando se estaria sendo blasé ao ficar falando sobre uma ida ao museu. Mas não me achem assim. É de se perder esse passeio. De entregar mesmo. Fui e quero ir de novo e sempre.  No Cemitério que leva o mesmo nome do bairro é outra parada interessante. Minha amiga relutou em ir, dizia ser um passeio lugrube. Eu não achava isso e continuo não achando. Nada de ficar pensando em fantasmas. Morte é parte da vida. Mas esse passeio é ir além desses conceitos. É bonito. Ao passar pelos jazigos, vi o quanto de filho da puta está lá. Mas esse assunto são outros quinhentos. Vale a observação: quantas boates e “nihgts clubs” tem em frente ao cemitério. Fica a dica de quem quiser fazer uma análise sobre o caso, caso não, tudo bem, só uma observação mesmo. Rs.

Bem, deixei minha coleguinha de caminhas portenhas lá na Recoleta e corri para o meu primeiro dia de aula. Do outro lado da cidade, mais exatamente no bairro de Caballito (como os argentinos dizem: Cabaxito. Ah tá!). Metrô lindo que funciona, me levou da estação Pueyerredon à Puan. – Combinación como dizem por aqui. Cheguei cedo para a aula – quase com a sensação de estar com a merendeira…hahaha. 


Aí foram chegando meus futuros colegas. Pessoal bem espalhado. Uma chilena, um Argentino do interior do país, uma uruguaia, um mexicano, um tanto de colombiano e mais três brasileiros comigo. Mas até esse momento não sabia dos brasileiros. Estou lá no blabla no mais horrendo castellano, mas o povo entendendo. A sala que tem a aula ainda estava ocupada por outra turma. Aí o pessoal foi saindo e todo mundo da minha turma ressabiado de subir, se entre olhando, aí a pessoa aqui sobe a escada e chama todos “Vamos”. Hahaha….Aí um pergunta tímido: “Você é a professora da material?”. Aí ok, ganhei minha noite. O nervosismo faz você rir e fazer coisas desse tipo. Não sou nada expansiva, o que acontece é que o medo e o nervosismo me dão um tapa na bunda, como se quisesse dizer: Vai Maria!.  Outros medos virão e as respostas são um enigma para mim. Mas enfim, aula começou, teve o momento de apresentação, fiz mais uma gracinha típica e tudo passou. Graças a Deus. No intervalo mais umas conversas. Chegamos todos sozinhos e fomos embora em 10 para o metrô. Por incrível, eu era a que menos falava (que previsível, imagino quantos estão rindo agora disso). 


Corri pra “casa”. Lar-doce-lar, meus amigos que trabalham no albergue me receberão, me dão boa noite, me chamam pelo nome. Nada como se sentir acolhida.

Buenos Aires, 09 de maio de 2011.



Buenos Aires, 09 de maio de 2011.

Quinto dia desde que cheguei. Cada uma das impressões que tive até agora não servem ainda para definir o que é morar na capital da Argentina.  Ainda mais que tenho vivido em um albergue, mais Torre de Babel não há. Nesse pouco tempo, várias coisas me chamam a atenção, sejam supérfluas ou não. Nunca fui à Europa, mas pelo meu imaginário, acredito que se parecem, não só pelo frio que tem feito, mas por toda arquitetura e pelas pessoas. Ainda que muitos transeuntes tenham feições bem indiginas.

Bom, cheguei exatamente no dia 5 de maio, após muito choro e despedidas carinhosas no Brasil. Todo esse sentimento conseguiu - e está conseguindo sustentar meus passos por aqui. Na noite da quinta-feira passada, ao chegar no albergue, uma brasileira adentrava também a porta. Incrível consciência. Giovana veio passar ferias de uma semana em Buenos Aires. A simpatia foi de cara e desde então ela tem sido uma companheira nos dias portenhos. Ouso dizer, que dias esses, sem farras. Com um pé machucado como o meu, decidi me cuidar e poupar nas andanças. Afinal, tem dois anos pela frente. Voltando a primeira noite…A fome era grande e sem que eu me desse conta, minhas opções de comida mudaram drasticamente. Para começar duas empanadas e um vinho. Delicioso. Claro que fiquei um pouco alta, pois uma pessoa com frio e fome está suscetível ao álcool.  *Ao voltar para a casa, acendi um cigarro de palha e um guarda muito simpático me parou e disse: “Senhorita, não pode fumar esse tipo de cigarro na rua, ok?”. Eu na mesma simpatia (quase abracei o moço) respondi que não era o que ele estava pensando e descrevi o produto fabricado na região onde vivo no Brasil. Me senti quase uma camponesa. Ele foi mais simpático ainda. Só não ofereci para ele fumar, pois pra quê brincar com a sorte, né?!
Primeiro café da manhã, experimentei as tais Medialunas. Algo parecido com os nossos croissants, porem doces. Ao quinto dia confesso já está enjoada. Enfim, vamos continuar. Peguei meu mapa e fui resolver as últimas coisas para começar as aulas do mestrado. Conheci Caballito, o bairro onde fica a sede da Filo - Faculdade de Filosofia e Letras da UBA (universidade de Buenos Aires). Alguém conhece o prédio da Fafich em Belo Horizonte? Então, é muito parecido, na verdade mais parecido com sede do DCE, porem bem maior. Sim, mil cartazes de movimentos estudantis pregados, o pessoal bem despojado no pátio central…enfim. Só um retrato mesmo. Resolvi boa parte das minhas coisas tranqüilamente. Que alivio e felicidade. Tentei já resolver a parte da aula de espanhol por lá também, mas soube que será em outra sede da Filo. Lá vou eu transitar por bairros. Seja o que Deus quiser. Depois fui conhecer o metrô e suas estações bem diferentes do que eu já vi. Fui ao bairro de judeus – Once e quase consegui um emprego na loja Havana – para quem não conhece, é uma marca importante de alfajor e café da Argentina. Numa conversa o dono perguntou se eu me interessava em trabalhar lá. Que simpatia. Falei que ligava, mas com meu horário de aulas, fica impossível.

Ao terceiro dia resolvi colocar os pés para cima. Ainda muito inchado, tirei o tempo do sábado para cuidar do pobrezinho. Arnica pra lá, arnica pra cá, enfaixado. Ajudou e muito. A noite resolvi aceitar o convite de uma amiga de uma amiga de minha mãe para jantar. Havia conversado com a Marta Luñeda somente por e-mail. Parecia muito entusiasma em me conhecer e me chamou para jantar em sua casa, em que chamaria outras de suas amigas. Lá fui eu levando uma garrafa de vinho. Eis que chego ao destino e conheço Marta. Figura excêntrica, quase louca (no bom sentido). A senhora estava com mais três amigos em seu apartamento. Cuba foi o primeiro assunto. Meus Deus, que difícil organizar tantas ideias diferentes em espanhol. O que era para ser um abre alas, foi uma discussão calorosa entre os convidados. Apaziguada, deu-se início a minha sabatina. Uma traulitada atrás da outra. Dessas que dá vontade de voltar pra casa e desistir de tudo. Mas, bem, esse era o terceiro dia, não podia esmorecer tão cedo. Sabendo que essa talvez fosse a primeira de várias nesses dois anos, resolvi enfrentar. “Não, não falo tão bem espanhol, mas fazendo aula, tudo pode melhorar”, “Não conheço esse filme, mas tem um maravilhoso de tal pessoa”, e rios e mais risos. Por fim, deram um tempo na pressão psicológica e desencanei. Comi, bebi, conversei, fiquei muda, pensativa, ri mais um pouco e fui embora. No fim, salvaram-se todos. Marta me levou à porta e foi um doce. Hastal luego, Martinha!

Ainda que frio, muito frio nesses dois últimos dias, as manhãs estão lindas. Céu azul de fazer chorar de tão bonito. Fui turistar. Conheci a Casa Rosada, sede da presidência. O primeiro andar já valeu o passeio. Uma exposição permanente “Os Patriotas da América Latina”. Muita história. De emocionar passar por cada uma das pessoas que ali estavam. Dom Oscar Romero, Che Guevara, Evita Peron e o maridón, Pancho Villa etc. A sensação é de pertencimento real na América Latina. E uma frustração de como nos conhecemos tão pouco. E felicidade por ver tanta criança lá com os pais e acompanhando animado o passeio.

Depois atravesse a rua e fui a Feira de San Telmo. Achei parecido com todas as feiras  de artesanato que já fui. Vale o passeio, mas não me surpreendeu demais. Foi dia de jogo do Boca. Vi os primeiro torcedores de longe. Vi não, ouvi. Bombas, gritarias, quase um Maio de 68. Isso antes de começar o jogo. O Boca ganhou, imagina como foi.
De lá fui ao bairro de Palermo de metrô. (Como funciona e te leva para todos os lugares!!!). Lindo bairro, bom passeio. Vi um grupo (!!!) de percussão chamado Bondi. Me perdi na rua Santa Fé – literalmente. Ao fim, encontrei o que precisava encontrar e cheguei sã e salva. Fim do dia, morri um pouco – de frio e cansaço.  Meu pé, agradece.
Devo dizer que meu espanhol chegou lindo, mas com cinco dias em Buenos Aires vejo que é horrendo. Nada tem a ver com o espanhol que arranhava em Cuba. POr que, meu Deus, uma palavra como ayer é pronunciada, achêr? Por que mayo é dito maxô? E se você fala como se escreve, é como se estivesse falando Esperanto ou Mandarim. Não entendem.  

Nesse quinto dia, andei a Calle Florida inteira. Quanto brasileiro. O pessoal deve tá rico, só pode, pois Buenos Aires não é tão barato como dizem. E mais um dia sem celular e sem casa. Mas com a inscrição da aula de espanhol feita e uma nova colega de classe. Pegue vários endereços de restaurantes vegetarianos e lojas de produtos naturais. Obrigada! Hahaha. E uma das melhores coisas dos dias: conversar com meus coleguinhas que trabalham no albergue. Na nossa última rodinha conversamos sobre Pescado Rabioso (Spinetta) – obrigada Argentina, obrigada irmão! E eles tocam Caetano Veloso todos os dias. Sebastián cantou e tocou Cajuína inteira. Uma graça!