segunda-feira, 11 de junho de 2012

Boipeba, Bahia, Brasil, Janeiro de 2007.

Boipeba, Bahia, Brasil, Janeiro de 2007.



Tinha jasmim no quintal.
Flor de cheiro, que se misturava entre coqueiros, guaiamuns e hibiscos.
Tinha cheiro também de gente nova.
Gente com olhares curiosos e de benção.
Traziam cores para o varal, saliva para as delícias,
sons para compartilhar e silêncios para completar.
A vontade de se encontrar, numa busca por si, não se findava.
Tudo se confundia com o desejo de juntar, comungar.
Areia fofa e quente enrijecia as pernas,
e a pele se queimava no mesmo percurso.
Tudo para ir. Ir ao encontro do mar e dos amigos feitos.
E ir tão longe era prazer, era desejo de sagrar o tempo.
Agora, era jeito de gente indo.
Eram olhos mareados.
Era toda vontade de ficar.
Enfim, era varal vazio.
Era beija-flor fora do ninho.
Era silêncio onde não havia.
Era coração feliz.
Era oração.
Era gente dali.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 30 de Abril de 2012.


Buenos Aires, 30 de Abril de 2012.

Há poucos dias de completar um ano de Buenos Aires. E já não caminho com o pé machucado, já não me confundo nas palavras e não falo ‘malas palabras’ sem saber. Já posso falar como são as quatro estações por aqui. Já tenho meus lugares preferidos, mas uma infinidade a conhecer. Meu número de telefone já sei de cor. Quero me desfazer de pelo menos 40 Kg coisas que tenho em malas, pois já conheço o clima e as roupas e objetos que uso. E cada dia mais sei que ‘menos é mais’. Em um ano já estou no meu quarto endereço e talvez me venha o quinto. Tenho amigos de infância nessa terra que me acolheu e me repeliu várias vezes.

Em um ano quero me apaixonar de novo por essa cidade. Depois do tempo de festa/férias no Brasil, foi como se tivesse revisto um amor antigo, Belo Horizonte, e isso fez balançar a estrutura do relacionamento que vinha tendo com a vida porteña. Certo que meu coração gosta mesmo é de amar. Mas paixão…essa dá e volta e revira. Aí é esperar para ver se a paixão vinga de novo. Mientras tanto, Buenos Aires é passível de enamorarse.

Um ano passa rápido. Mais outro ano passará tão rápido quanto. E a saudade serviu de alimento para Outono, Inverno, Primavera e Verão. E a tecnologia serviu para dificultar que a saudade seja sentimento maior. A distância vem também para se conhecer no meio de um mundo que não é seu e você no máximo é um passageiro disso tudo. Mudar ajuda a organizar essa bagunça que pode ser sua cabeça e colocar a prova que cozinhar, lavar vasilha e estar sozinha são ótimas terapias. Aqui, descobri que solidão é coisa que se pode optar. Foram poucos os tempos de solidão, e estar sozinha as vezes é uma maravilha.

Estar há um ano por aqui me deixou mais paciente. A convivência com pessoas com outras criações, outras culturas, outros tudo, te deixam mansa e forte. Você aprende que não pode dar um cutucão quem está ao seu lado comendo de boca aberta. E sabe que se não conseguir ficar quietinha, na sua, é possível se se concentra e abstrair. E que quando alguma coisa não dá, não dá. E que mesmo assim perseverança se consegue sem se fazer estrondos.

E nesses 12 meses uma paixão virou amor. Luis Alberto Spinetta me arrebatou. O conheci pelas mãos do meu irmão, que uma vez mais me presenteou com a música, no caso, esse argentino, que quando me apresentou, não fazia ideia teria um dia uma vida nesse lado de cá. E o escutei aqui com uma constância tamanha que me deixou mais feliz quando a melancolia e a alegria me visitaram. O vi em programas de televisão, o escutei com amigos daqui em dias de pura música quando nos encontramos para escutar discos e eles tocavam para mim notas e cantavam melodias do “Flaco”, como Spinetta é carinhosamente chamado aqui. E quando eu estava aí em fevereiro, esse muchacho de ojos de papel se foi e me despedi dele como se fosse um amigo próximo, com uma tristeza parecida. Ontem fui à um show do Pedro Aznar em homenagem ao Spinetta. A avenida Sarmiento com 50 mil pessoas era puro silêncio.

Emocionante. E iluminou aquela noite, quando eu já era da cidade e gritei junto com os meus agradecendo a presença do Flaco nessa vida. E assim vivo já o frio úmido de Buenos Aires, que me esquenta em momentos como esse. Te deixo uma música que me convidou ao amor e me faz tentantiva de repaixonar.

“Ya lo estoy queriendo. Ya me estoy volviendo canción...”

Bitocas minhas.

Maria

y
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=-6tGDgkzHb8

Buenos Aires, Março de 2012.


Buenos Aires, Março de 2012.

Bom, essa carta foi tecida por alguns dias. E enfim, escrever é isso também: costurar…mesmo quando nos falta a linha ou a agulha. Hoje já não escrevo mais do chão do quarto, como no início dessa jornada. Passados quase 11 meses de vida do lado de cá, muita coisa mudou. E vai mudando mesmo. E muda também porque na trajetória vim e fui. Depois de tudo – ou quase tudo que te contei sobre os olhares de viver aqui, há um sentimento que não sei se alcança a palavra.

Quando cheguei, bem como você já sabe, era frio naquela época, eu era “sozinha” e escrever era uma ótima companhia. Cheguei aqui em Buenos Aires dessa vez no início do mês, pela terceira vez. E dessa vez fazia muito calor, já tinha o endereço certo e o melhor caminho traçado para levar as malas o mais rápido. E já não escrevo mais sentada no chão. De todas as vezes essa foi a viagem mais tranqüila. Em poucas horas – de SP à BsAs foram duas horas e meia e eu estava na capital argentina. E com um espanhol capenga depois de dois meses de férias falando nosso dialeto mineirês. Com esse castelhano entrei no taxi e pedi pra seguir ao meu endereço. Taxista é uma classe que gosta de conversar, né?! E tratando-se de Buenos Aires vale a regra que não se deve falar muito quando se é estrangeiro. Sem generalizações, juro. Nesse caso, mesmo podre de cansada e sem muita vontade de conversar, fui estreitando o laço com o motorista e deixando claro que eu vivia aqui para que não me passasse a perna. Salientei que meu espanhol estava “hecho mierda”. Muito educado me diz que estava mais portenha que brasileira. Mentira. Com a cara queimada de sol e o sotaque duro, eu podia ser tudo, menos portenha. Enfim, Rubens e eu fomos conversando até a porta de casa. E mesmo quando tudo lhe parece estranho – afinal voltar depois de meses de férias (intensas) é estranho.

Entro em casa e lá estava Charlie, namorado francês de Julieta. Ele que morava no Brasil e falava um português raro, me recebeu falando espanhol, ainda raro, e me apresentou ao seu amigo no Skype (em francês). Ou seja, não bastasse eu chegando “meio perdida”, sou recebida em casa em francês. Julieta chega algum tempo depois e começa a falar em inglês com o francês. Fiquei tonta e resolvi ir desfazer a mala no quarto.

Por aqui, não sei ainda ao certo se em Buenos Aires ou dentro de mim, as coisas soam estranhas. Está diferente a volta, as árvores e o céu não são mais os mesmos. E talvez não seja eu mesma nesse lugar. Algumas coisas chegam para mudar, né?! . E por mais que possa parecer, eu não sou a melhor das pessoas paras mudanças.. Um dia achei que fosse. Mas custa. Custa uma saudade, custa um coração amanhecendo meio capenga, meio apertado. Custa uma tarde de céu nublado mesmo quando o sol arde. Arde e nubla dentro. Algumas coisas vão mudando aqui. Já há a possibilidade de uma nova casa, de um novo trabalho, projetos que vêem e brindam essa nova trilha. E aí a saudade vai esmorecendo, o dia vai ficando mais lindo, o espanhol saí com mais facilidade, as conversas no ônibus voltam a ter som. Organizar as coisas por aqui, significa agora, deixar um pouco de lado os últimos dois meses aí. Que sim, foram lindos e não se engane, está tipo tatuagem. Tudo sempre estará à flor da pele. E seguir por acá não é o mesmo que esquecer. É só mesmo dar espaço. Aí tudo vai se ajeitando.

E aí me vejo no reencontros, os amigos que te esperam, os novos projetos que “te põe pilha”. E um deles queria te contar. Desses encontros que só a vida, num mistério profunda te dá, resolvemos fazer dele um coletivo. Um coletivo de gente que se juntou aqui. E aí que vamos juntar o trabalho de cada um fazer um negócio. Vai que chega aí um convite em breve. Vai que…E desses intercâmbios, sugeri que começássemos a ver um filme uma vez por semana. Um filme de cada país que nos gerou. E aí que hoje, fomos ver Mutum. Além de querer muito rever esse filme – faz uns quatro anos que o vi pela primeira vez no cinema, me instigou uma curiosidade da legenda em espanhol e a reação do povo. E aí que é isso, é redundante. Sentimento é universal. Pode ser filmado em um lugarejo sertanejo, perdido no meio do mundo, que ali vai ter uma história que te arrebatar. E eu chorei de novo com o encontro, com o Thiago e com o Campo Geral. Foi lindo dividir com os amigos mexicanos, colombianos, argentinos isso.

Comecei a escrever essa carta no segundo dia da chegada. Talvez seja uma das únicas cartas que escrevo por partes. A chuva deu o ar da graça na segunda-feira. Molhou o Março que molha geralmente molha aí. E hoje, já com duas semanas quase de ‘retomada’, a correria já existe e me dá uma pausa para vim te contar um bocadinho das coisas do lado de cá. Vou daqui esperando a próxima manifestação em alguma rua e te escrever a próxima carta.

Saudade.

Maria

Buenos Aires, 4 de Dezembro de 2011.


Buenos Aires, 4 de Dezembro de 2011.

Por pouco não escrevi 4 de Primavera. Um lapso corrigido a tempo.
Chegado ao mês sete aqui. Dezembro chegou. E que alegria é dizer mais de meio ano vivendo aqui. Seria essa a sétima carta? Bom, não sei. E também nem importa muito. Não sei se você chegou a ler todas essas linhas que enviei nas "cartas". Cheguei a esse décimo segundo mês do ano - preciso dizer que minha mãe sabiamente disse que devia se chamar Dozembre, como achei incrível, precisei compartilhar. 

Enfim, chegamos ao último mês do ano e tô aqui pensando o que posso contar. E na verdade, tem muitas coisas, a vida aqui por mais que você não faça "nada" em um dia, ele é capaz de ser um dia altamente interessante. E isso nem precisa estar em Buenos Aires para reconhecer. 

Você provavelmente deve ter um tanto de coisa para contar e nunca me contou. A verdade é que tô arrumando a mala. E acho essa a pior parte de uma viagem. Porém agora, mexendo nas minhas coisas aqui, fui ver o que levo ou não. E quis deixar algumas coisas que ficaram á minha vista todo esse tempo e que ficarão. Meus bilhetinhos, cartas, fotos, o ursinho que a Lia mandou para mim de Luanda, a caixa que recebi da Giovanna com meu cachecol - tive que deixar ele guardado agora, pois fazem 30 graus com uma umidade  que abafa, estranho. E aí vi as cartinhas que minha mãe me enviou, a lista que fiz quando meu pai veio me visitar...e aí um carinho tão imenso de tudo, 'inscluisive' seu, que quis adiantar a carta. 

De tudo, quero dizer mesmo, que cada suspiro gerado por um beijo, abraço, silêncio...cada suspiro bom desses, me ajudou a andar com uma bota imobilizadora, suportar o frio, tomar chuva no meio da rua sem guarda-chuva, nos primeiros dias que continuam sendo os primeiros cada vez que ouso ir ver algo novo. E aí que falar do último filme que ví, o escândalo na tv, o calor portenho, os vizinhos, o choro cantando um Mantra, as reformas nas ruas...não fariam tanto sentido agora. Talvez na próxima carta ou tete-a-tete, pois tô chegando. Sim sim. Desce com o copo que a conversa vai ser longa.

Buenos Aires, 5 de Novembro de 2011.


Buenos Aires, 5 de Novembro de 2011.

Dias de calor. Começar a sexta carta falando do clima é quase obvio. Mas, desculpa, é inevitável. Ontem choveu a beça, no entanto reconhecia a chuva: daquelas que anunciam o dia ensolarado do dia seguinte. Eis que! E assim foi recebido meus seis meses de vida portenha. Sim, inacreditável, né?! Lá se vai um semestre, meio ano de vida aqui. A verdade é que esses seis meses foram mais para você que para mim. Confesso que desde novembro do ano passado sabia da possibilidade da minha vinda. Arrumando “as caixas de cartas”, vi que há um ano mais ou menos recebi a tal mensagem falando do mestrado que hoje faço. E no dia que me dei conta e quis me inscrever, andei por Belo Horizonte quase com um tom de despedida. Fui a pé do trabalho ao outro lado leste da cidade – de sul a leste, olhando cada rua, estrela, janela, rua, cruzamentos, as pessoas, tudo, como “humm, talvez fique um tempo sem ver tudo isso!”. A verdade que o belo horizonte não saiu de mim, ainda que sinta um bom ar, minhas Gerais não escapuliu dos meus olhos. Assim como você que por aí estão. E agora, escrevo essas linhas com a audácia, escutando Nara cantando en castellano. E aí te conto como foram os dias últimos.

Bom, que Buenos Aires tem pelo menos uma manifestação por dia, isso todo mundo já sabe. Eu passo por algumas toda semana. No entanto, eu participei de duas muito importantes no último mês. Sem muito planejar, cruzei por elas. E entrei. Éramos eu e meu pai, ele que junto a minha mãe, me apresentou e nos levou, eu e meu irmão, para as primeiras aglomerações políticas da minha vida. Desde que me entendo por gente estive em uma. Desta vez, éramos nós dois, pai e filha na capital argentina, passeando e por “razão” dos cosmos, estávamos no lugar certo, na hora certa. A primeira, um ato por um ano da morte do estudante Mariano Ferreira. Um argentino que foi morto durante a reivindicação junto a classe ferroviária e foi baleado. Cerca de 200 mil pessoas avançavam em marcha a avenida de Mayo. Gritos e cantos por justiça fortalecia a manifestação. Eram diferentes grupos sociais. Estudantes, professores, médicos, trabalhadores de áreas distintas. Um dia te mostro o vídeo que fiz.

O segundo evento foi a comemoração por a reeleição da Cristina Fernandes de Kishner. Eram milhares de pessoas, jovens, crianças, pais e mães com seus bebes e idosos. Hora cantavam o nome de Cristina, outra, o nome de Néstor, que morreu há um ano. Mais uma vez emocionante. Eu e meu pai no meio da multidão compartilhando mais um momento político marcante. Muitas bandeiras. Um pronunciamento que eu cantei junto com meus "novos compatriotas". Que Deus nos proteja! Que Nossa Senhora da América Latina esteja com a gente!

E vestida disso tudo, fui continuar no dia seguinte, meu processo de legalização. Por Deus, quanto boliviano, paraguaio, peruano. Quanta cara de índio. Horas e horas, todos esperando o mesmo. Ali, entendi que definitivamente, Buenos Aires é a capital da América Latina. Nós, Brasil, somos maior e agora mais poderosos que nunca, mas por questão do idioma, Buenos Aires é destino para aqueles acreditam em uma oportunidade “melhor” na vida. Ponto máximo talvez seja a educação que seja um convite tentador, já que escola e universidade é gratuita. Entre mil e uma contradições, nós, aqui estamos.

São seis meses e algumas vezes tenho a sensação de sempre ter estado aqui. Não fosse pelo fato da sensação/sentimento que tenho todos os dias, de curiosidade, de olhar pela vigésima vez uma paisagem e ainda sim ela me parecer muito nova, não diria que são mais de 300 dias aqui. Ah, o sono e o despertar também são confortáveis. Mas todos os dias, TODOS, quando saio a rua (ou escuto meus vizinhos brigando já de manhã), penso: “é mesmo, estou na Argentina!”.

Aqui tenho levado a ferro e fogo a mineiridade. Sabe aqueles nossos almoços em casa, em que a gente só sai da mesa às nove da noite?! São assim. Convido os amigos para vir em casa e vamos de cachaça, aperitivo, almoço, Sobremesa, café, conversa, risos, música, café, biscoitinho… e aí meus oim enchem d’água: não tinha broa de fubá!

Lembra da banda que mandei a música na última carta? Pois bem, fui ao show deles essa semana. Onda Vaga. Incrível! Ah e vi dois filmes argentinos interessantes: El Estudiante e Medianeras. Cada um especial a sua maneira. Se der, os veja. E a vida tem sido assim, de estudos – uma sorte estudar teatro e cinema que esses são sempre meus “deveres de casa”. E aí gente aproveita um dia lindo e vai para a praça ler e tomar mate. Ou não, vai ver a cidade de uma terraza diferente. E aí, encanto vai, encanto vem. E em mais um piscar de olhos, passa mais uma semana, um mês, um ano. E mais num piscar de olhos a saudade vai virar abraço e beijo.

Maria

Buenos Aires, 07 de Outubro de 2011.


Buenos Aires, 07 de Outubro de 2011.

Ei!
Uma chuva hoje. Dessas que te enche de preguiça e muda por um instante seu olhar pela janela. Vesti meu aparato para o clima: galochas, casaco impermeável, guarda-chuva e anti-frizz para o cabelo. O vento quase carregou meu guarda-chuva azul. Ficou virado para cima. Suei para segura-lo em minhas mãos. Misericórdia! Imagina que tenha dormido a tarde, né?! Pois não. Hoje não cumpri com a siesta. Aliás, tenho a evitado. Comecei a arrumar a casa, escrever, lavar vasilha, enfim, fiz tudo para que o delicioso repouso da tarde não vencesse. Hahaha

Essa semana comemorei cinco meses de vida em Buenos Aires. Para mim, parece muito mais. Algumas vezes tenho a sensação de sempre ter estado aqui. Não fosse pelo fato da sensação/sentimento que tenho todos os dias, de curiosidade, de olhar pela vigésima vez uma paisagem e ainda sim ela me parecer muito nova, não diria que são mais de 300 dias aqui. Ah, o sono e o despertar também são confortáveis. Mas todos os dias, TODOS, quando saio a rua (ou escuto meus vizinhos brigando já de manhã), penso: “é mesmo, estou na Argentina!”.

Minha semana de comemoração foi rotineira e interessante – sim, as duas palavras podem viver em completa harmonia! Fiz almoço em casa para receber Pablo. Ai que delicia. Abri aquela garrafa de cachaça que trouxe daí. Ah, pero muy rica!!! Fiz feijão rajado, arroz branco que há muito não o fazia, salada de quinoa, farofa e aquele assado de abobrinha. Não tinha mais o queijo Minas que ganhei da Aline quando veio. Se não tinha deixado para a sobremesa com doce-de-leite. Essa parte, inclusive, é uma briga entre u e Pablito. Eu insisto que o doce-de-leite de Minas (de Viçosa) é mais gostoso. Não que o daqui não seja. São diferentes. Mas ele não acredita que nem bom seja. Yes, nós temos leite! Enfim. Mas representei a mineiridade muito bem. Sabe daqueles nossos almoços em casa, em que a gente só sai da mesa às nove da noite?! Foi assim. Cachaça, aperitivo, almoço, Sobremesa, café, conversa, risos, música, café, biscoitinho…e aí meus oim encheram d’água: não tinha broa de fubá!

Há muito queria ver uns filmes que finalmente chegaram ao cinema aqui. Acho que sou a estudante de cinema que menos vai ao cinema. Tirei a barriga da miséria e lá fui eu.  Vi “Arvore da Vida”, belezura poética. “El Estudiante”, filme argentino novo, bem bom também, claro que com outro viés. Está muito bom para conhecer onde estudo, já que foi filmado na UBA. Lembra quando te disse que onde eu estudava parecia um D.A da UFMG 30x mais cheios de cartazes. Diretório Político em todo o prédio e política feita ali mais que aulas assistidas. Ah, Buenos Aires!!! Bom, e por ultimo (?), assisti a “Pina”. Certo que estou sem fôlego até agora. Quando chegar aí não deixe de ver, pelo amor de Deus! #eudramaqueem. Wim Wenders é um ser para ser amado. Meu Deus!!!

Deixo um beijo.

Buenos Aires, 27 de Setembro de 2011.


Buenos Aires, 27 de Setembro de 2011.

Eis que chego à minha terceira estação aqui. Finalmente chegou a Primavera. E conto a você que é impressionante como a paisagem já muda. A árvore em frente a minha casa, mais precisamente, que está justo em frente a janela da sala de casa, que parecia morta, todos os galhos secos, ela, que já não tinha muita cor, a não se os passarinhos que iam namorar lá todo dia, agora já começa a saltar ramos verdes. A natureza ali bem debaixo dos meus olhos. E assim estão as veredas – calçadas, cheias de árvores frondosas todas exibidas se mostrando lindas pra gente. E aí, você passa por uma das 987 praças que estão espalhadas por Buenos Aires, cheias de gente. Crianças correndo, velhinhos tomando sol, jovens se encontrando. O silêncio do inverno está indo embora. Eu que estava sedenta pelo calor, ainda observo de longe, sentindo a onda do clima, como dizem aqui.

Mas é uma beleza, hei de confessar. Talvez nada me deixa tão feliz quanto o sol. É bem sabido que sou uma calanga por natureza e se eu pudesse ficava aí, namoradinha com sol. Pois além de muito branca e a camada de ozônio não tá de brincadeira, a vida corre e eu passo de raspão do solão.

Há coisas para fazer. E meu luxo de ficar ali quietinha, adquirindo energia solar para o resto do dia, não passa de uns minutinhos durante o caminho rotineiro. Falo só mais um pouco da Primavera, prometo. Você precisa ver como ela é recebida aqui. Todos os lugares tem faixas de boas vindas, todas as pessoas ao primeiro dia já estão com flores nas mãos, sejam porque lhes deram, seja porque compraram em alguma floreria – detalhe para o fato de existirem muitas, muitas, floriculturas (que é chamada aqui de floreria) em todos os lugares. E digo mais: não é só agora não. Elas são várias e são como bancas, abertas 24 horas!!! E todos nesse dia lhe desejam “Feliz Primavera”, tal qual a celebração do Dia do Amigo. Pois bem, a dita cuja chegou, meio tímida, é verdade, pois no Segundo dia, já caiu a temperatura, 8 graus, choveu, e da-lhe tirar o casaco e a botinha do armário. 

Mas eis que já amanheceu um dia lindo, azul, e já vejo meus braços e pernas for a de casa novamente. E um convite para tomar uma caipirinha. Digo porque os portenhos acham que brasileiro toma caipirinha todo dia, até no café da manhã. Aí para te agradar ou sei lá o quê, falam de caipirinha, praia e queijo quente. Eu, dou corda.

Ainda que seja tão comemorada assim a nova estação, não vejo tanta felicidade assim da parte dos nativos. Ok que estamos recém primaverados e não posso ousar tirar uma conclusão tão séria como essa. Mas sinto que eles gostam do frio. Muito cá entre nós, tenho achado estranho não usar minha bota vermelha.

Dos hábitos que reforcei aqui, foi o de ler jornal todos os dias. Mas agora são quatro. Não saio de casa sem antes ler um par de notícias e ver a previsão do tempo. Dependendo do meu humor, me arrisco a ver meu horóscopo. E cavuco notícias, viu?! Ave Maria. E quando tenho a tarde livre, me arrisco a ver o noticiário. Não muito diferente das tardes televisas brasileiras, aqui tem notícia de morte, seqüestro, escandalos com famosos etc e tal. Na tv aberta aqui passa a TeleSur. Aproveitei o dia de folga na última semana e vi/ouví a participação de alguns presidentes na reunião da ONU. Hahahha…. Sabe que TeleSur tem sua base maior na Venezuela, né?! E haja informação do Hugo Chavez. Houve um ato ecumênico em Nova York, onde estavam várias pessoas, entre elas o presidente boliviano Evo Morales. E qual não foi a surpresa? Chavez ao telefone ao vivo participa do ato. E falou com fulano, com ciclano…um bafuá. Isso tudo dentro da igreja. Muy gracioso! Muito moderno. Mas achei bom demais o discurso da Cristina (Cris Kishner). Bom demais é um exagero. Mas ela falar que o Velho Continente precisa com urgência a saber lidar com a crise, sobretudo, financeira que têm passado, completando o discurso da Dilminha, dizendo que eles/nós, podemos ensinar muito, afinal, ô nós que vivemos crises. E uma tal lá dando conselhos para Argentinas, Brasil e afins. A mesma tal (pessoa que agora esqueci o nome) deu conselhos para Grécia no ano passado. Palmas!

Aqui as últimas repercussões foram a absolvição do Carlos Menen, ex presidente que respondia por o envolvimento com financiamento de armas e corrupção; uma mulher, que divorciada do marido há algum tempo, quer usar o semêm congelado dele para engravidar, ele a proibiu, pois não há motivos plausíveis e ele não quer filho com ela (!), a mulher recorreu e a justiça a autorizou a usar (mas tá quente o negócio, não se fala em outra coisa) e o Mundial de Rugby, que não me pergunte o que é. Soube há pouco que é um esporte e um êxito da Argentina. Entre outras coisas como o terrível acidente com o trem aqui no bairro de Flores. Foi imensamente terrível mesmo. Muito perto do campus que estudo.

Faz tempo que não escrevo, né?! Nem sei muito mais o que contar, o que é novo ou não. Bom, esse mês de Setembro foi comemorado o mês do Brasil na Argentina. Muita coisa passou por aqui. Entre ellas uma festa na rua. Fubá demais. Devia ter chamado Porto Seguro Day. Três bolinhas de pão de queijo, 10 Pesos! Baiana tomando mate e uma banda cantando a música que dizem ser uma das mais famosas do Brasil: “ô Mila”. Entre os festejos, houve dentro do Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires homenagens/mesas sobre literatura brasileira. Me programei para ver as falavam de Machado de Assim, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ah, mas queria muito saber o que os argentinos e os demais vizinhos de língua hispânicas tinham a dizer sobre escritores brasileiros muito singulares. Tomei a tarefa quase como guardiã. Haha… O fato é que depois que me mudei pra cá, percebi (mais) a importância da nossa língua e me dei conta da veneração que os argentinos tem pelo Brasil e sobretudo pela arte. Durante esses dois dias que estive lá no Festival, mais ainda. Vi o Grande Sertão Veredas traduzido. Ainda não o comprei, mas o paquerei, passei por páginas e curiosa em demasia, queria ver como fizeram para traduzir o intraduzível. Não tenho resposta ainda para dar, a não ser que eles explicam o que é Jagunço, e que virou Yagunzo. E foi interessante ver a sala cheia em um sábado a noite, gente de todas as idades e lugares, escutando análises e contos de Clarice Lispector. Feliz de mim!
E como não poderia deixar de ser, eis mais uma pérola dessa que vos escreve. Dentro do ônibus, eu e Julieta. Vejo um cartaz de uma festa que tinha um nome chamativo, amor alguma coisa, não lembro ao certo. Aí Juli diz: “Essa festa aconteça em um antigo prostíbulo”. Eu: “Igual a Casa Rosada?”. Obvio que com meu tom de voz. Pessoas se viram para ver quem conversava. Explico: Confundi Casa Rosada (a sede do governo Argentino) com Casa Rosa, anti puteiro de luxo no Rio de Janeiro, em Laranjeiras, que hoje é um lugar que acontece festas (ótimas) e como Juli já morou no Rio, sabia ao que me referia. Anfam, entre conchas, cajetas e Casa Rosada, salvaram-se todos.

Te mando um beijo. Feliz Primavera!

Maria

Buenos Aires, 11 de Setembro de 2011.


Buenos Aires, 11 de Setembro de 2011.

Hoje a lua nasceu Hermosa. Digna de contemplação. Assim deveria ser sempre, aliás.A lua nasceu assim e acordei pensando: como e quanto se dão os encontros? Ou melhor, que vibração é essa que nos seguir um caminho, e nele cruzar com outras histórias?

Talvez se eu estudar física quântica ou assistir mais uma vez filmes como “Quem somo nós” e “O Segredo”, alguma ideia mais certeira eu tenha. Por agora eu tenho suposições ou isso que chamamos de deslumbramento, que segundo o dicionário é “deixar-se fascinar ou seduzir”.

Esse tema sempre vem à tona na minha cabeça. Percebe-se pela quantidade de vezes que já me intriguei em outros rascunhos.

Atualmente moro em Buenos Aires. Há cerca de um ano, meus planos eram seguir de férias para visitar alguns amigos e conhecer lugares como Barcelona, Paris, Milão e Tunis. Enquanto muitos me falavam para poupar dinheiro e ir por perto do Brasil mesmo, como conhecer a Argentina, eu relutava e dizia que iria sim, mas em outro momento, pois a esse país, queria uma visita mais amiúde. Isso porque tal lugar sempre me causou muito encanto e daí meus estudos e interesses quase sempre ele estava envolvido. Eis que um dia recebi um e-mail de uma das pessoas mais queridas dessa vida: Gabriel. Nele, me dizia sobre um mestrado que estava com inscrições abertas na Universidade de Buenos Aires. O curso: Teatro e Cinema Latinoamericano. Tentador, mas confesso que naquele momento não dei bola. Por razões que não cabem aqui, resolvi espiar o tal e-mail novamente, isso, uns dois meses depois. Me inscrevi. Fui atrás de toda documentação, rescrevi o projeto e o mandei. Assim, sorrateiramente – aprendi forçadamente que compartilhar uma expectativa, é triplicar a ansiedade e no fracasso, a tristeza vem gigantesca. Três meses depois o resultado saiu e cá estou.

Apreensão, alegria, medo, expectativa, entre outros sentimentos estiveram presentes desde novembro do ano passado e me acompanham ainda hoje, confesso. Parti para realizar um projeto que acredito, quando tudo estava muito bem, obrigada.  Para mim, não abandonei nada, apenas mudei de lugar e partilho das mesmas alegrias do meu porto, em outro lugar. Percebi que isso não poderia ter acontecido em um momento diferente. 

Daqui, partilham-se histórias semelhantes. Sentimentos que por um milésimo de tempo, pensei que só eu sentia. Nas conversas a fim de descobrir o outro e o novo, se cruzam. Os caminhos por uma graça se encontraram. Como não iria conhecer-los? Como eu não conheceria o Gabriel e com ele dividisse parte da minha vida e por ele, não saberia e viveria isso? Há coisas que não se desatam, há outras que se afrouxam e há muitas que só ata mais ainda os nós. Ainda bem.

Maria Elisa M.R. (Em uma noite de lua cheia, à espera da Primavera, com um vento suave e meio frio, que provavelmente muitos de outros cantos sentem agora)

Buenos Aires, 31 de agosto de 2011.


Buenos Aires, 31 de agosto de 2011.

Na verdade, a história de sentir saudade de feijão (com arroz) é uma lenda. Mentira. Não é lenda e sim representações da saudade. Claro que posso viver sem feijão, sem queijo minas, sem pão de queijo, sem BIS, sem abacaxi e todo o sacolão lindo e maravilhoso que tenho aí perto de casa. Poder eu posso, a questão é se eu quero ou não. A questão é que tudo isso, além de ser delicioso, é uma representação. Um sabor que vem da saudade. Saudade essa que bate sempre, mas sem lamento. Bom, meu pacotinho de feijão preto ainda não acabou e aquele pacote de feijão Rajado que ganhei, ainda está fechadinho, esperando a hora dele.

 E o tempo tá que tá passando rápido. Eis que já terminou o mês de agosto. E quarto meses Buenos Aires. E quatro meses de quê mais? De frio. Eu seu que já deve está careca de “ouvir” isso, mas imagina eu?! Cansei. Já deu, já basta, tchau frio. Hoje amanheceu 2 graus. Ao meio-dia faziam 10. E o que eu fico sabendo? Que aí, em pleno inverno está algo como 32 graus. Um sol de rachar a mulera. Ah, Deus, que inveja. Sou filha de índio, meu Deus. Quero ver meus braços, minhas pernas, sair de casa sem um casacão, sem botas…Ok, um desabafo rápido. Desculpa. Ok, é inverno e inverno faz frio mesmo. Conforme-se e espere mais uns 20, 30 dias. E vamos as noticias.

Na verdade sem muitas novidades, deixando reservado meu direito de coisas de Maria, que cá estão comigo. Hahahaha…

Enfim, a vida segue. Não, claro que tenho uma novidade novíssima: tenho 27 anos. Meu primeira aniversário longe de casa. Na nova casa. Digo que foi diferente. Sim, comemorei. Algumas vezes. Primeira comemoração no meio do mês, no Brasil, aí com (parte) dos meus. Que lindo foi. Com bolo, guaraná, jujubas. E aquele tantão de beijo e olhinho brilhando. Ah, Belo Horizonte. Teve colo de mãe, cafuné de pai, chamego do irmão, abraços infinitos, carinhos carinhos carinhos. Xiliquinho lindo e manhoso não me esqueceu e Pacheco e Bento pulam em mim como se tivessem me visto um dia antes. Teve quintal, tentativa de calangar no sol. E te conto que isso renovou a energia e voltei pronta para a nova idade, a continuação da vida. 

E aqui, fiz festa com direito a sete nacionalidades, três “Parabéns pra você” diferentes. Fazia um frio (e a novidade?), ventava, mas nada que uma Salsa e uma Cumbia não levantasse a temperatura. Queridos amigos estiveram junto. E várias (VARIAS) pessoas que nunca ví antes – e provavelmente não vou ver mais. Hahaha…E dessas pessoas que nunca me viram, só me perguntam: Quantos anos? Quem pergunta a idade antes de dar um olá e perguntas seu nome antes??? Ai que bom ser eu nessa altura do campeonato (sem nenhuma soberba, juro!): “Oi, tudo bem? Como você chama? Maria, prazer. Sim, sou brasileira e você quem é? Ah prazer, mucho gusto”. Aí sim a gente conversa, desenvolve a conversa, né?! Hahahaha…ah, gringos. Bom, e teve surpresinha ao final para os convidados. Não, não, nada de stripper, escândalos, não preocupa. Surpresinha mesmo. Saquinho, com bala, língua-de-sogra e outras bobagens ficávamos ansiosos para ganhar na festinha do coleguinha. E recebi mensagens, telefonemas, cartinhas, tudo lindo. Como alguém pode não gostar de aniversário???????? Feliz ano novo, Maria!!!!!

Bom, daí pra frente, é só correr. Correr para não chegar atrasada na aula de espanhol – etapa nova. Voltar a acordar cedo depois de uma mini férias. Refazer os horários, tudo tem que dar tempo. Chegou a hora temida de apresentar trabalhos no mestrado e escrever para cada material/seminário. Mas isso não vou detalhar nessa carta de hoje, não, tá? Ah não, muito chato!

E os chino amigo? Hahahaha….Essa cidade está cheia de chineses. Não são pouco não. São muitos. Todos! Em cada bairro há mercadinhos, vários desses. E eles são os “Chino”. E lá estão os olhinhos puxados falando o idioma deles mesmo. Uns muita mala onda, mas outros ótimos. Eu moro em Belgrano, ao lado do Barrío Chino – nossa Chinatown. Fast food oriental, restaurantes finos, mega stores de buchingangas. Dizem que quando se comemora o ano novo chinês tem aquelas festonas na rua. A ver. E bem, desde que cheguei aqui, descobri um restaurante chinês pero do hostel que morei. E lá é um dos poucos self-service que existe aqui, mas assim, não tão self-service, pois só para buscar comida, colocar na sua marmitinha e tchau. Pois lá  lá que continuo indo nos dias que estou nas redondezas. E não que desenvolvi uma amizade com o Chino? Hahahha…Já saí de trás do balcão, me cumprimenta e tudo. Um fofo. Está fazendo aula de português e fica naquela querendo conversar em português, uma graça. E em um dos mercadinhos aqui perto de casa, onde vou fazer minhas comprinhas, o senhor Chino me pergunta: “E como foi no Brasil?”. Levei um sustinho, mas aí me lembrei que eu conversada que sou, lhe contei que está indo ao Brasil. E aí já está acontecendo o que me alegra em morar no bairro belorizontino: passar e sair cumprimentando o pessoal da vizinhança.
Enquanto lhe escrevo esta, a representação da minha saudade chegou. O feijão que estava na panela queimou. (Não foi nenhuma metáfora. Queimou mesmo). Vou ali resolver isso. Escrevo em breve.

Saludos!

Maria

Buenos Aires, 10 de agosto de 2011.


Buenos Aires, 10 de agosto de 2011.

Sim…lá se vão três meses de vida do lado de cá. Acerca do Rio de la Plata vivo o inverno, o qual, diga-se de passagem, já me habituei.  Algumas chuvas me pega num dia. E para isso, troquei a bota ortopédica por uma galocha. Mas de modo geral, o frio vem recheado de um céus lindos.

E há um mês tenho uma casa para chamar de minha. Uma cama – meu primeiro bem material comprado aqui. Tenho feijão preto e tenho cozinhado bastante. E de fato, para mim, é um prazer ir à verduraria e preparar o almoço. E nessa hora, inevitavelmente me lembro do sacolão no Brasil, das frutas, do cheiro, da variedade…enfim!

Dos encantos daqui. A esses me aparecem todos os dias. Continuam achando os portenhos amáveis e com humor semelhante. Agora já conheço gente de outras partes dessa Argentina, fora os latinos e gringos que estão aqui como eu. E isso é intensamente maravilhoso. Músicas, comidas, charlas, danças, pensamentos, madrugadas e manhãs.

Há pouco tivemos eleições para Indente (prefeito) aqui em Buenos Aires. Dois turnos e por fim, Mauricio Macri foi reeleito. Temos um Márcio Lacerda aqui também. Malisimo!!!

Da saudade daí. Ah como sinto saudade. Saudade boa de sentir. E essa, cessaremos. Que venha o sol!

Beijos meus,

Maria

Buenos Aires, 2 de julho de 2011.


Buenos Aires, 2 de julho de 2011.

Solstício de inverno - fenômeno astronômico usado para marcar o início do inverno. Acontece normalmente por volta do dia 21 de Junho no Hemisfério sul e 22 de Dezembro no Hemisfério norte. Esta data também era de grande importância para diversas culturas antigas, que de um modo geral a associavam simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento. E assim, te sido.

Bom, o inverno chegou em Buenos Aires. Sim, faz frio. Hoje acho que chegamos a 1 grau e a sensação térmica de menos 3 pelo menos. Os jornais daqui dão que o risco de neve existe para os próximos dias. A ver. Sigo para minha segunda estação aqui. E da-lhe mate para esquentar...sim, adquiri um novo hábito. Algo como um litro e meio por dia. Essa é uma medida de principiante.

O tempo no hostel (albergue) se foi. Vive lá foi importante, chato, bom e uma constante despedida. Todo dia uma cara nova, a tentativa de se comunicar em outra língua...ou não. Era dar tchau todos os dias. E conto: era uma sensação de turista ainda. E isso era agonizante. Sensação de alguma coisa de querer ir, ter endereço para chegar carta, um pouso certo. Não ser transitório, temporário.  Embora tudo nessa vida de meu Deus seja.
Pouco antes do tão esperado inverno chegar, aproveitei os últimos dias de outono para me mudar de casa. Aceitei o convite do meu amigo Federico e fui morar com ele por algum tempo. E viver em uma casa, ainda que temporariamente, já volto a cozinhar, preparar café da manhã, dar bom dia ao vizinho da casa ao lado. E tudo ganha outro gosto.  E agora, malas prontas de novo. Me mudo para uma casa para chamar de minha. Em Belgrano vou morar com Julieta, una chica de Córdoba.

Nesse período de vida porteña, já ensino malas palavras também. Acho importante para enriquecer o vocabulário dos meus amigos de cá que anseiam aprender português. Enquanto isso, minha professora de espanhol vai se surpreendendo com que tenho aprendido no cotidiano nas “ruas”.

Com a despedida do outono, despedi também da minha tal bota ortopédica. Já me sinto bem melhor, o pé direito já não dói mais e tenho que me acostumar de que o frio e a intensa umidade (aqui a umidade chega a 90%), exalta qualquer dorzinha escondida. É um fato.  Agora é voltar para o ensaios de sapateado, pois o show tem que continuar.

A vida porteña segue de vento em polpa. Mas em polpa que em vento. Cada dia é um perrengue para resolver, um planejamento para fazer. Mas vivo isso com um sabor mais doce que amargo – meu paladar aprecia os dois. Se me aborreço, não resolvo, então vamos com calma e perseverança.

Na última semana fui ao teatro com dois amigos, um mexicano e um colombiano. Experiência rica. Desencanei e dale Maria a falar. A título de conhecimento, a peça era boa. De um assunto imensamente universal que são os relacionamentos amorosos. Haha...o negócio é igualzinho no mundo inteiro no final das contas. Depois, uma pizza e uma festa. E assim tem sido a mistura: sair com a colega brasileira para um show, encontrar outros amigos de Belo Horizonte, ir a casa de venezuelanos, comer Arepa (!) e tomar um trago de Rum, ver um toró cair e ir para casa.  Uma observação fajuta: conversando com meu amigo colombiano, tenho a capacidade lhe perguntar “ah, e tem algum autor assim, importante da Colômbia, assim, que você possa citar”. Haha...ai que bobinha...”tem sim, Gabriel Garcia Marques.” Ri, fiz um chiste e mudei de assunto.

Aqui faço uma pergunta recorrentemente em minha cabeça: que ano é hoje? Isso porque coisas que já vi como “febre” há alguns (bons) anos, aqui é o auge agora. Mil pessoas com piercing na sobrancelha e/ou no lábio, e nas festas toca músicas como “Bom xibom, xibom, bombom!”. Fora que aqui tenho outra sensação diariamente: vejo nos metrôs, ruas, personagens, atores de novelas que já morreram. O rosto das pessoas quase sempre me é familiar. Tenho certeza que muita gente famosa que “morreu” está escondida aqui. Já vi o Armando Bogus, Francisco Milani, Dercy Gonçalves e até o gordinho de Lost. Estou em outra dimensão. Eu não, Buenos Aires. Ao mesmo tempo que aqui é uma cidade enorme, uma metrópole, progressista etc e tal, as vezes tenho a sensação de estar em outra época. Impossível explicar. Eu queria ter uma máquina de escrever, uma câmera (me aventuro tirando fotos escondida), alguma coisa para registrar a vida, os rostos das pessoas dentro do metrô. Juro!

Contei que outro dia vi o Rick Martin, né?! E contei que vi o Pino Solanas também? Pois bem, o vi. Seu comitê é enfrente ao hostel que eu estava. O vi fazendo campanha na rua – ele é candidato a prefeito de Buenos Aires.  Foi um tanto quanto emocionante.

E viver aqui é ver um ônibus lotado às 2h da manhã. Os coletivos funcionam a noite inteira, madrugada a fora. E as pessoas usam. Fácil ver as paradas de ônibus cheias às 3h da matina e o ônibus passar direto porque está cheio. O metrô não, pois esse fecha às 22h30. Uma pena.

Morar em Buenos Aires é ver uma manifestação todos os dias. Sim, todos os dias, alguma rua está fechada para manifestantes. E você se acostuma (ou não). Sejam servidores públicos reivindicando por melhores salários ou estudantes reivindicando melhores condições na estrutura da escola. Todos vão as ruas para protestar. Velho, jovem, mães, homens, crianças. Todos os dias, enfatizo mais uma vez.

E por falar em ir as ruas, impossível não falar sobre a primeira etapa do Campeonato Nacional chamado Nestor Kichner. Sim, o campeonato de futebol mais importante da Argentina leva o nome do ex presidente, que faleceu ano passado.  Ele que era torcedor (hincha) do Racing. Bem, e um fato surpreende ocorreu e parou a cidade, o país, eu diria: a equipe do River Plate caiu para a segunda divisão, aqui, Nacional B. Isso pode acontecer com qualquer um, ora bolas. É trágico, mas assim, nada que nos tire dos trilhos, em alguns dias, nós, torcedores de outras equipes – lembrando que sou praticamente torcedora de todos os times com simpatia maior ou menor por algumas, mas isso é outro assunto. Mas os argentinos não é qualquer acontecimento.  Em 110 anos de existência, o River nunca descendeu de divisão. Já esteve mal das pernas, mas nunca...NUNCA foi tão mal. Por isso a tragédia. Pela primeira vez em mais de um século não haverá um clássico entre Boca x River. E por isso tudo parou, as pessoas ou o torcedores selvagens quebraram tudo. Não vi nada de perto, mas era só os que os telejornais, periódicos, revistas davam e as pessoas falavam. Que Copa América que nada, o assunto era o River – que teve duas oportunidades para não ser rebaixado e não adiantou nada. E isso foi a alegria para muitos. Como os torcedores de outras equipes estão felizes. Como! Nada interessava mais.  E no domingo da derradeira me alojei em casa. Meus amigos só me diziam “Não saia de casa hoje, Maria. E não uso por algum tempo qualquer roupa azul e amarela.” (Porque lembra as cores do Boca Juniors e isso poderia causar um mal estar nas ruas. Obs.: Já basta eu ter ido a um jogo do Vasco e Guarani no Maracanã vestida de verde, cor do time adversário – Guarani, no caso. Alexandre, me desculpa mais uma vez). Obedeci, não sou boba nem nada, fiquei quietinha. Então é isso: tchau River. Agora tente ser o melhor da série B...ou não, porque sou Atlanta e quero ver ele ganhar.

A saudade daí segue. Um pedaço sempre está presente para não deixar esquecer. Impossível esquecer. É carinho espalhado por essa Belo Horizonte e por esse mundão de meu Deus. Por hoje, vejo essa aqui como minha terrinha. Assim tenho que fazer mesmo. Mas eu volto....um dia eu volto. E se quiser vir me visitar, os braços estão mais apertos que do Cristo Redentor.

No próximo domingo é aniversário do irmão. Mais uma Festa Julina. E o primeiro aniversário dele, que me lembre, que não passo junto com ele. Teté já passou quatro vezes o 3 de Julho sem a Maria. Mas por pura questão de tempo. Nasci no seu quarto inverno. E agora é agüentar a saudade, sentir o beijo e o abraço de longe e comemorá-lo daqui.  Já pedi que os meninos daqui toquem no show Lamento do Morro em homenagem a ele. E falei com Cristina Fernandes Kischner que decrete feriado. Pedido atendido. Ninguém trabalha no domingo! Bem vindo ao mundo (sempre), irmão! Feliz novo ano!

E lembrando dele, lembro também que aqui as forças musicais seguem. Todos os dias cambiamos músicas com os amigos. Assim já conheci muita gente boa. De música tradicional peruana ao último disco de uma banda islandesa. Charlie Garcia e Spinetta na veia. Viva o rock argentino.

Minha relação com o Brasil e com as coisas daí as vezes se exaltam. Durante algumas aulas vem um desejo imenso de dividir obras daí. O professor perguntou esses dias sobre quem nós brasileiros da sala julgávamos bons narradores, não importando o meio. Meus colegas insistiram para eu abrir a boca – sim, muitos ainda me acham tímida e muito séria. Fazer o que, né?! Continuando...aí quis falar  do Fernando Sabina em Encontro Marcado, do Guimarães Rosa e da Sandra Kogut em Mutum, do Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho em Lavoura Arcaica (livro e filme), do Coutinho....enfim, me encorajei e falei meia dúzia de palavras. Ufa!

Bom, acabei me estendendo hoje. E por aí, como estão as coisas?

Buenos Aires, 7 de junho de 2011.


Buenos Aires, 7 de junho de 2011.

Há geralmente um hiato entre uma carta e outra, contado da vida do lado de cá. Mas agora me dou o direito de abrir uma breve exceção.

Pois bem, estava eu voltando da aula de espanhol, a pé (a escola fica há algumas quadras de onde eu vivo). E como o dia de hoje é corrido, fui ao restaurante buscar comida, comer em casa para sair de novo para o mestrado e por lá ficar até às 22h30.

Em uma das ruelas que passo todos os dias, avisto uma muvuca de gente e uma ambulância. Penso logo que algo terrível acontecera. Me aproximo e vejo muitas mulheres, uma equipe de tv, homens vendendo chaveiros e quase todos com seus celulares e máquinas fotográficas apontando para cima. Logo "despensei" o horrível e me ponho a perguntar a um cidadão: "que passa?". E eu escuto somente isso: Rick Martin. Na hora tive um ataque de riso por dentro. Olhei para cima, mas não o vi. E continua a minha caminhada até o restaurante. Afinal, o dia é de pressa. Mas confesso que quis ficar mais um pouco para tentar ver o dito. Nunca estivemos tão perto. Rick Martin na esquina da minha casa. Não é sempre que isso acontece, né? Mas segui.

Saindo do restaurante com minha singela marmita e meu pezinho manco com a bota ortopédica, um carro em alta velocidade passa por e quase me leva e foi nessa hora que vi Rick. Quase me atropelando. E em seguida desse momento mágico, vejo mulheres loucas vindo correndo atrás, pessoas entrando dentro de taxis para seguir o porto-riquenho cantante lindo!

Rick Martin veio se casar aqui em Buenos Aires.

Sem mais, fico por aqui.

Maria

Buenos Aires, 5 de junho de 2011.



Buenos Aires, 29 de junho de 2011.
Solstício de inverno - fenômeno astronômico usado para marcar o início do inverno. Acontece normalmente por volta do dia 21 de Junho no Hemisfério sul e 22 de Dezembro no Hemisfério norte. Esta data também era de grande importância para diversas culturas antigas, que de um modo geral a associavam simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento. E assim, te sido.
Bom, o inverno chegou em Buenos Aires. Sigo para minha segunda estação aqui. E como é de praxe, faz frio. Aqui, um pouca mais frio. Então agasalho-me, tomo mate – faço isso agora com constância, algo como um litro e meio por dia. Essa é uma medida de principiante. Mas já me encanta.
Pouco antes do tão esperado inverno chegar, aproveitei os últimos dias de outono para me mudar de casa. Aceitei o convite do meu amigo Federico e fui morar por algum tempo em sua casa no lindo bairro de Boedo. E vivemos dias incríveis dividindo o mesmo teto. Fede é um querido, acolhedor e um coração imenso. Ensino “mineirês” todos os dias e é uma dificuldade um argentino entender os acentos do português, mas ele tem se dedicado. Já fala: “Cê tá bão?”. E viver em uma casa, ainda que temporariamente, já volto a cozinhar, preparar café da manhã, dar bom dia ao vizinho da casa ao lado. E tudo ganha outro gosto. E claro, ensino malas palavras também. Acho importante para enriquecer o vocabulário deles. Enquanto isso, minha professora de espanhol vai se surpreendendo com que tenho aprendido no cotidiano.
O tempo no hostel (albergue) era uma constante despedida. Todo dia uma cara nova, a tentativa de se comunicar em outra língua...ou não. Era dar tchau todos os dias. E conto: era uma sensação de turista ainda. E isso era agoniante. Sensação de alguma coisa de que ir, tinha que ter endereço para chegar carta, um pouso certo. Não ser transitório, temporário.
Com a despedida do outono, despedi também da minha tal bota ortopédica. Sim, sem o consentimento prévio do meu querido doutor Juan. Mas que logo saberá, pois pretendo visitá-lo essa semana ainda. Não brigue comigo. Já me sinto bem melhor, o pé direito já não dói mais e tenho que reconhecer que o frio e a intensa umidade (aqui a umidade chega a 90%), exalta qualquer coisa dorzinha escondida. É um fato. Então, agora a pessoa aqui segue para uma fisioterapia para deixar tudo nos trinques. E volta-se ao Piltates. Ah senhor Joseph, obrigada!
A vida porteña segue de vento em polpa. Mas em polpa que em vento. Cada dia é um perrengue para resolver, um planejamento para fazer. Mas vivo isso com um sabor mais doce que amargo – meu paladar aprecia os dois. Se me aborreço, não resolvo, então vamos com calma e perseverança.
Na última semana fui ao teatro com dois amigos, um mexicano e um colombiano. Experiência rica. Desencano e dale Maria a falar. A titulo de conhecimento, a peça era boa. De um assunto imensamente universal que são os relacionamento. Completamente entendível. Depois, uma pizza e uma festa. Fazia um frio de 1 grau. E assim tem sido a mistura: sair com a colega brasileira para um show, encontrar outros amigos, ir a casa de venezuelanos, comer Arepa (!) e tomar um trago de Rum, ver um toró cair e ir para casa. Uma observação fajuta: conversando com meu amigo colombiano, tenho a capacidade lhe perguntar “ah, e tem algum autor assim, importante da Colômbia, assim, que você possa citar”. Haha...ai que bobinha...”tem sim, Gabriel Garcia Marques.” Ri, fiz um chiste e mudei de assunto.
Aqui faço uma pergunta recorrentemente em minha cabeça: que ano é hoje? Isso porque coisas que já vi como “febre” há alguns (bons) anos, aqui é o auge agora. Mil pessoas com piercing na sobrancelha e/ou no lábio, e nas festas toca músicas como “Bom xibom, xibombombom!”. Fora que aqui tenho outra sensação diariamente: vejo nos metrôs, ruas, personagens, atores de novelas que já morreram. O rosto das pessoas quase sempre me é familiar. Um dos maiores prazeres aqui é tirar foto escondido. Já vi o Armando Bogus e o gordinho de Lost. Estou em outra dimensão. Eu não, Buenos Aires. Ao mesmo tempo que aqui é uma cidade enorme, uma metrópole, progressista etc e tal, as vezes tenho a sensação de estar em outra época. Impossível explicar. Eu queria ter uma máquina de escrever, uma câmera, alguma coisa para registrar a vida, os rostos das pessoas dentro do metrô. Juro!
Contei que outro dia vi o Rick Martin, né?! E contei que vi o Pino Solanas também? Seu comitê é enfrente ao hostel que eu estava. O vi fazendo campanha na rua – ele é candidato a prefeito de Buenos Aires. Foi um tanto quanto emocionante.
E viver aqui é ver um ônibus lotado às 2h da manhã. Os coletivos funcionam aqui a noite inteira, madrugada a fora. E as pessoas usam. Fácil ver as paradas de ônibus cheias às 3h da matina e o ônibus passar direto porque está cheio. O metrô não, pois esse fecha às 22h30. Uma pena.
Morar em Buenos Aires é ver uma manifestação todos os dias. Sim, todos os dias, alguma rua está fechada para manifestantes. E você se acostuma (ou não). Sejam servidores públicos reivindicando por melhores salários ou estudantes reivindicando melhores condições na estrutura da escola. Todos vão as ruas para protestar. Velho, jovem, mães, homens, crianças. Todos os dias, enfatizo mais uma vez.
E por falar em ir as ruas, impossível não falar sobre a primeira etapa do Campeonato Nacional chamado Nestor Kichner. Sim, o campeonato de futebol mais importante da Argentina leva o nome do ex presidente, que faleceu ano passado. Ele que era torcedor (hincha) do Racing. Bem, e um fato surpreende ocorreu e parou a cidade, o país, eu diria: a equipe do River Plate caiu para a segunda divisão, aqui, Nacional B. Isso pode acontecer com qualquer um, ora bolas. É trágico, mas assim, nada que nos tire dos trilhos, em alguns dias, nós, torcedores de outras equipes – lembrando que sou praticamente torcedora de todos os times com simpatia maior ou menor por algumas, mas isso é outro assunto. Mas os argentinos não é qualquer acontecimento. Em 110 anos de existência, o River nunca descendeu de divisão. Já esteve mal das pernas, mas nunca...NUNCA foi tão mal. Por isso a tragédia. Pela primeira vez em mais de um século não haverá um clássico entre Boca x River. E por isso tudo parou, as pessoas ou o torcedores selvagens quebraram tudo. Não vi nada de perto, mas era só os que os telejornais, periódicos, revistas davam e as pessoas falavam. Que Copa America que nada, o assunto era o River – que teve duas oportunidades para não ser rebaixado e não adiantou nada. E isso foi a alegria para muitos. Como os torcedores de outras equipes estão felizes. Como! Nada interessava mais.  E no domingo da derradeira me alojei em casa. Meus amigos só me diziam “Não saia de casa hoje, Maria. E não uso por algum tempo qualquer roupa azul e amarela.” (Porque lembra as cores do Boca Juniors e isso poderia causar um mal estar nas ruas. Obs.: Já basta eu ter ido a um jogo do Vasco e Guarani no Maracanã vestida de verde, cor do time adversário – Guarani, no caso. Alexandre, me desculpa mais uma vez). Obedeci, não sou boba nem nada, fiquei quietinha. Então é isso: tchau River. Agora tente ser o melhor da série B...ou não, porque sou Atlanta e quero ver ele ganhar.
A saudade daí segue. Um pedaço sempre está presente para não deixar esquecer. Impossível esquecer. É carinho espalhado por essa Belo Horizonte e por esse mundão de meu Deus. Por hoje, vejo essa como minha terrinha. Assim tenho que fazer mesmo. Mas eu volto....um dia eu volto. E se quiser vir me visitar, os braços estão mais apertos que do Cristo Redentor.
No próximo domingo é aniversário do irmão. Mais uma Festa Julina. E o primeiro aniversário dele, que me lembre, que não passo junto com ele. Teté já passou quatro vezes o 3 de Julho sem a Maria. Mas por pura questão de tempo. Nasci no seu quarto inverno. E agora é agüentar a saudade, sentir o beijo e o abraço de longe e comemorá-lo daqui. Já pedi que os meninos daqui toquem no show Lamento do Morro em homenagem a ele. E falei com Cristina Fernandes Kischner que decrete feriado. Pedido atendido. Ninguém trabalha no domingo! Bem vindo ao mundo sempre, irmão!
E lembrando dele, lembro também que aqui as torças musicais seguem. Todos os dias cambiamos musicas. Conheci muita gente boa. De musica tradicional peruana ao último disco de uma banda islandesa. Charlie Garcia e Spinetta na veia. Viva o rock argentino.
Minha relação com o Brasil e com as coisas daí as vezes se exaltam. Durante algumas aulas vem um desejo imenso de dividir obras daí. O professor perguntou esses dias sobre quem nós brasileiros da sala julgávamos bons narradores, não importando o meio. Meus colegas insistiram para eu abrir a boca – sim, muitos ainda me acham tímida e muito séria. Fazer o que, né?! Continuando...aí quis falar do Fernando Sabina em Encontro Marcado, do Guimarães Rosa e da Sandra Kogut em Mutum, do Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho em Lavoura Arcaica (livro e filme), do Coutinho....enfim, me encorajei e falei meia dúzia de palavras. Ufa!
Bom, acabei me estendendo hoje. E por aí, como estão as coisas?


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Buenos Aires, 5 de junho de 2011.

é...um mês de vida em Buenos Aires. E definitivamente passa rápido. A rotina já me consome 65% do meu dia. As aulas de mestrado já não espantam tanto como na primeira semana. Um amigo aqui, outro acolá, discutindo sobre as aulas e a vida no café ao lado. O curso de espanhol segue de vento em polpa. Colegas queridos, professoras ótimas. E diariamente, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, tenho aprendido a viver em Buenos Aires. Minhas “aulas” com os amigos daqui deixam minhas professoras de cabelo em pé.
A vida aqui é de aventura delicada. Arriscar é mudar o passo, equilibrar o peso das coisas, arriscar falar um pouco mais a cada dia, andar, se perder e encontrar. Dançar certo num dia e aquietar-se no outro.

O frio continua (ontem a noite era de 6 graus), mas meu corpo parece ter se acostumado um pouco. Já não me "mata", nem me prende em casa. Consigo enfrentar as ruas. Cada dia é um passinho diferente...para o novo. Ando por outras calçadas, arrisco novos trajetos e descubro mais uma coisa nova. Já tenho o melhor lugar para comer empadas, já elegi meu restaurante diário e meu supermercado predileto. A busca por uma casa permanece firme e forte. Não é tão fácil como pensava, e talvez, mais difícil como haviam me dito quem por aqui passou. Mas vamô que vamô e em breve acontecerá.
Comemorei com os Argentinos, talvez a data mais especial para eles: o 25 de Maio. Foi nessa data que em 1810, os argentinos botaram para correr os espanhóis. Talvez essa seja a festa mais importante para eles. A avenida de Mayo é a mais enfeitada. Toda a cidade e muitos carros estão com suas bandeiras, as pessoas com os broches e por aí vai. Meu primeiro feriado na terra de San Martin. Um grande show aconteceu na Praza de Mayo e um público gigante ficou até meia-noite, num frio, aproveitando a comemoração. Locro, pastelitos são alguns dos comes tradicionais do dia. Todos só falam nisso. Locro é algo como um guisado. E pastelito, é um doce típico. Porém, só vi nesse dia mesmo. Foi interessante ver esse tipo de celebração. Nunca tinha visto isso na vida. Faixas e mais faixas, muitos uruguaios também, enfim, o país em festa.

Nesse um mês também recebi minha primeira visita - Patrícia e Rosalva vieram e foi lindo! Batemos perna até e encontramos curiosamente com um mineiro na sorveteria, e depois no cemitério da Recoleta e depois da Praça das Nações Unidas. Por aqui, já encontrei também amigos de amigos de BH, ainda não conheci Valeria e Norma pessoalmente, conheci Lara, mais uma baiana (mais uma, porque no meu curso de espanhol, tem mais dois)por aqui e que, claro, temos pelos menos meia dúzia de pessoas em comum, que essas, por sua vez, estão espalhadas no mundo também.
Os casos (ora, cômicos) se multiplicam todos os dias. Ontem, por exemplo, um tanto de coisa escorregou das minhas mãos e o lugar que estava com um tanto de gringo, ninguém me ajudou. E nessa hora, gritei em português “Ah que bom que todo ajuda!”. Nesse momento, todos se levantaram e começaram a catar minhas coisas caídas. Obvio que minha cara foi no chão, disparei a rir (por dentro) e vi que o português pode ser universal. E outro caso, mais sério é: quando vierem para cá, não digam cajetas (achando que estão falando o diminutivo de caixas), acabô (quando quiser que algo terminou) e tampouco chame uma mulher de gata. Ah, e não pergunte onde está uma concha para pegar lentilhas ou o guisado. E meninas, saibam o que é um xamuchero.

Voltando. Ando levando mesmo uma vida portenha. Essa semana, por exemplo, fui ao hospital sozinha. Meu pé que deu uma zicada, foi levado ao médico para fazer uma consulta. Lá vamos nós. Deu pra conversar com o médico – meio sério no inicio. Fiz uma radiografia e o resultado: ligamentos ainda continuam fracos e de tanto eu andar e correr. Por isso algumas dorzinhas e a falta de firmeza. O frio e a umidade "agravam" a sensação de que ele pedia ajuda. Enfim, um antiinflamatório e uma bota ortopédica para imobilizar o dito cujo. Três semanas. Quase morri. Os olhos encheram d'água. “Não é possível. Como vou ficar andando com essa bota, tendo tanta coisa para fazer, casa para procurar, aulas para ir, escadas para subir, metrô para pegar?”, era só o que pensava. Mas por fim me acalmei. Tudo vai ficar bem. Dá para continuar minha vida normal. E a bota é para isso mesmo, o pé fica imobilizado, enquanto faço as coisas. E ainda bem que descobri a tempo, antes que virasse o pé mais uma dezena de vezes igual vinha acontecendo. Buenas, obrigada, Vida, mais uma vez. E uma das mágicas que acontecem nesse lugar. A bota aqui custa uma fortuna: 450 Pesos. Sebastian, o anjo, e que trabalha aqui, sabendo do meu caso, ligou para o irmão dele que trabalha com produtos ortopédicos. Conclusão: me emprestou a bota. E cá estou com meu novo acessório. E no fundo foi importante ter passado por essa lenga-lenga de hospital (sem gravidade) e me virar em outra língua. rs...

Os portenhos me surpreendem a cada dia. Amáveis na maioria do tempo. Já contei que um aqui já me apelidou de Tango? Porque me acha dramática. rs...vê se pode?! Eu me pergunto: como? Eles são os mais, os Reis.

Meu castelhano vai indo bem. Já começo a contar os causos em espanhol. E todos entendem. Coisas pequeninas, piadinhas, jeitos, e eles entendem. Dia desses fui explicar para o povo aqui a brincadeira que tinha no programa do Sérgio Malandro – em que a pessoa/criança, em uma cabine gritava sim ou não, em troca de um prêmio bom ou ruim. Hahaha.
Não, não vou escrever em castelhano. Vamos nos ater a língua que nos é comum. Se por um lado estou indo bem com a língua hispânica, com as dos ianques nem tanto. O mínimo de inglês que sabia, hoje falo igual ao Tarzan. Não sei nada, não lembro o passado de "speak". rs...uma maravilha. Meu cérebro só capta um idioma por vez. Não me peça para falar três línguas de uma vez. Ou seja, o albergue para mim é literalmente uma Torre de Babel. Well, me despeço por aqui. Au revoir!