quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 09 de maio de 2011.



Buenos Aires, 09 de maio de 2011.

Quinto dia desde que cheguei. Cada uma das impressões que tive até agora não servem ainda para definir o que é morar na capital da Argentina.  Ainda mais que tenho vivido em um albergue, mais Torre de Babel não há. Nesse pouco tempo, várias coisas me chamam a atenção, sejam supérfluas ou não. Nunca fui à Europa, mas pelo meu imaginário, acredito que se parecem, não só pelo frio que tem feito, mas por toda arquitetura e pelas pessoas. Ainda que muitos transeuntes tenham feições bem indiginas.

Bom, cheguei exatamente no dia 5 de maio, após muito choro e despedidas carinhosas no Brasil. Todo esse sentimento conseguiu - e está conseguindo sustentar meus passos por aqui. Na noite da quinta-feira passada, ao chegar no albergue, uma brasileira adentrava também a porta. Incrível consciência. Giovana veio passar ferias de uma semana em Buenos Aires. A simpatia foi de cara e desde então ela tem sido uma companheira nos dias portenhos. Ouso dizer, que dias esses, sem farras. Com um pé machucado como o meu, decidi me cuidar e poupar nas andanças. Afinal, tem dois anos pela frente. Voltando a primeira noite…A fome era grande e sem que eu me desse conta, minhas opções de comida mudaram drasticamente. Para começar duas empanadas e um vinho. Delicioso. Claro que fiquei um pouco alta, pois uma pessoa com frio e fome está suscetível ao álcool.  *Ao voltar para a casa, acendi um cigarro de palha e um guarda muito simpático me parou e disse: “Senhorita, não pode fumar esse tipo de cigarro na rua, ok?”. Eu na mesma simpatia (quase abracei o moço) respondi que não era o que ele estava pensando e descrevi o produto fabricado na região onde vivo no Brasil. Me senti quase uma camponesa. Ele foi mais simpático ainda. Só não ofereci para ele fumar, pois pra quê brincar com a sorte, né?!
Primeiro café da manhã, experimentei as tais Medialunas. Algo parecido com os nossos croissants, porem doces. Ao quinto dia confesso já está enjoada. Enfim, vamos continuar. Peguei meu mapa e fui resolver as últimas coisas para começar as aulas do mestrado. Conheci Caballito, o bairro onde fica a sede da Filo - Faculdade de Filosofia e Letras da UBA (universidade de Buenos Aires). Alguém conhece o prédio da Fafich em Belo Horizonte? Então, é muito parecido, na verdade mais parecido com sede do DCE, porem bem maior. Sim, mil cartazes de movimentos estudantis pregados, o pessoal bem despojado no pátio central…enfim. Só um retrato mesmo. Resolvi boa parte das minhas coisas tranqüilamente. Que alivio e felicidade. Tentei já resolver a parte da aula de espanhol por lá também, mas soube que será em outra sede da Filo. Lá vou eu transitar por bairros. Seja o que Deus quiser. Depois fui conhecer o metrô e suas estações bem diferentes do que eu já vi. Fui ao bairro de judeus – Once e quase consegui um emprego na loja Havana – para quem não conhece, é uma marca importante de alfajor e café da Argentina. Numa conversa o dono perguntou se eu me interessava em trabalhar lá. Que simpatia. Falei que ligava, mas com meu horário de aulas, fica impossível.

Ao terceiro dia resolvi colocar os pés para cima. Ainda muito inchado, tirei o tempo do sábado para cuidar do pobrezinho. Arnica pra lá, arnica pra cá, enfaixado. Ajudou e muito. A noite resolvi aceitar o convite de uma amiga de uma amiga de minha mãe para jantar. Havia conversado com a Marta Luñeda somente por e-mail. Parecia muito entusiasma em me conhecer e me chamou para jantar em sua casa, em que chamaria outras de suas amigas. Lá fui eu levando uma garrafa de vinho. Eis que chego ao destino e conheço Marta. Figura excêntrica, quase louca (no bom sentido). A senhora estava com mais três amigos em seu apartamento. Cuba foi o primeiro assunto. Meus Deus, que difícil organizar tantas ideias diferentes em espanhol. O que era para ser um abre alas, foi uma discussão calorosa entre os convidados. Apaziguada, deu-se início a minha sabatina. Uma traulitada atrás da outra. Dessas que dá vontade de voltar pra casa e desistir de tudo. Mas, bem, esse era o terceiro dia, não podia esmorecer tão cedo. Sabendo que essa talvez fosse a primeira de várias nesses dois anos, resolvi enfrentar. “Não, não falo tão bem espanhol, mas fazendo aula, tudo pode melhorar”, “Não conheço esse filme, mas tem um maravilhoso de tal pessoa”, e rios e mais risos. Por fim, deram um tempo na pressão psicológica e desencanei. Comi, bebi, conversei, fiquei muda, pensativa, ri mais um pouco e fui embora. No fim, salvaram-se todos. Marta me levou à porta e foi um doce. Hastal luego, Martinha!

Ainda que frio, muito frio nesses dois últimos dias, as manhãs estão lindas. Céu azul de fazer chorar de tão bonito. Fui turistar. Conheci a Casa Rosada, sede da presidência. O primeiro andar já valeu o passeio. Uma exposição permanente “Os Patriotas da América Latina”. Muita história. De emocionar passar por cada uma das pessoas que ali estavam. Dom Oscar Romero, Che Guevara, Evita Peron e o maridón, Pancho Villa etc. A sensação é de pertencimento real na América Latina. E uma frustração de como nos conhecemos tão pouco. E felicidade por ver tanta criança lá com os pais e acompanhando animado o passeio.

Depois atravesse a rua e fui a Feira de San Telmo. Achei parecido com todas as feiras  de artesanato que já fui. Vale o passeio, mas não me surpreendeu demais. Foi dia de jogo do Boca. Vi os primeiro torcedores de longe. Vi não, ouvi. Bombas, gritarias, quase um Maio de 68. Isso antes de começar o jogo. O Boca ganhou, imagina como foi.
De lá fui ao bairro de Palermo de metrô. (Como funciona e te leva para todos os lugares!!!). Lindo bairro, bom passeio. Vi um grupo (!!!) de percussão chamado Bondi. Me perdi na rua Santa Fé – literalmente. Ao fim, encontrei o que precisava encontrar e cheguei sã e salva. Fim do dia, morri um pouco – de frio e cansaço.  Meu pé, agradece.
Devo dizer que meu espanhol chegou lindo, mas com cinco dias em Buenos Aires vejo que é horrendo. Nada tem a ver com o espanhol que arranhava em Cuba. POr que, meu Deus, uma palavra como ayer é pronunciada, achêr? Por que mayo é dito maxô? E se você fala como se escreve, é como se estivesse falando Esperanto ou Mandarim. Não entendem.  

Nesse quinto dia, andei a Calle Florida inteira. Quanto brasileiro. O pessoal deve tá rico, só pode, pois Buenos Aires não é tão barato como dizem. E mais um dia sem celular e sem casa. Mas com a inscrição da aula de espanhol feita e uma nova colega de classe. Pegue vários endereços de restaurantes vegetarianos e lojas de produtos naturais. Obrigada! Hahaha. E uma das melhores coisas dos dias: conversar com meus coleguinhas que trabalham no albergue. Na nossa última rodinha conversamos sobre Pescado Rabioso (Spinetta) – obrigada Argentina, obrigada irmão! E eles tocam Caetano Veloso todos os dias. Sebastián cantou e tocou Cajuína inteira. Uma graça!

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