Buenos Aires, 09 de maio de 2011.
Quinto dia desde que cheguei. Cada uma das
impressões que tive até agora não servem ainda para definir o que é morar na
capital da Argentina. Ainda mais
que tenho vivido em um albergue, mais Torre de Babel não há. Nesse pouco tempo,
várias coisas me chamam a atenção, sejam supérfluas ou não. Nunca fui à Europa,
mas pelo meu imaginário, acredito que se parecem, não só pelo frio que tem
feito, mas por toda arquitetura e pelas pessoas. Ainda que muitos transeuntes
tenham feições bem indiginas.
Bom, cheguei exatamente no dia 5 de maio, após
muito choro e despedidas carinhosas no Brasil. Todo esse sentimento conseguiu -
e está conseguindo sustentar meus passos por aqui. Na noite da quinta-feira passada,
ao chegar no albergue, uma brasileira adentrava também a porta. Incrível consciência. Giovana veio passar ferias de uma semana em Buenos Aires. A
simpatia foi de cara e desde então ela tem sido uma companheira nos dias
portenhos. Ouso dizer, que dias esses, sem farras. Com um pé machucado como o
meu, decidi me cuidar e poupar nas andanças. Afinal, tem dois anos pela frente.
Voltando a primeira noite…A fome era grande e sem que eu me desse conta, minhas
opções de comida mudaram drasticamente. Para começar duas empanadas e um vinho.
Delicioso. Claro que fiquei um pouco alta, pois uma pessoa com frio e fome está suscetível ao álcool. *Ao voltar
para a casa, acendi um cigarro de palha e um guarda muito simpático me parou e
disse: “Senhorita, não pode fumar esse tipo de cigarro na rua, ok?”. Eu na
mesma simpatia (quase abracei o moço) respondi que não era o que ele estava
pensando e descrevi o produto fabricado na região onde vivo no Brasil. Me senti
quase uma camponesa. Ele foi mais simpático ainda. Só não ofereci para ele
fumar, pois pra quê brincar com a sorte, né?!
Primeiro café da manhã, experimentei as tais
Medialunas. Algo parecido com os nossos croissants, porem doces. Ao quinto dia
confesso já está enjoada. Enfim, vamos continuar. Peguei meu mapa e fui
resolver as últimas coisas para começar as aulas do mestrado. Conheci Caballito,
o bairro onde fica a sede da Filo - Faculdade de Filosofia e Letras da UBA
(universidade de Buenos Aires). Alguém conhece o prédio da Fafich em Belo
Horizonte? Então, é muito parecido, na verdade mais parecido com sede do DCE,
porem bem maior. Sim, mil cartazes de movimentos estudantis pregados, o pessoal
bem despojado no pátio central…enfim. Só um retrato mesmo. Resolvi boa parte
das minhas coisas tranqüilamente. Que alivio e felicidade. Tentei já resolver a
parte da aula de espanhol por lá também, mas soube que será em outra sede da
Filo. Lá vou eu transitar por bairros. Seja o que Deus quiser. Depois fui
conhecer o metrô e suas estações bem diferentes do que eu já vi. Fui ao bairro
de judeus – Once e quase consegui um emprego na loja Havana – para quem não
conhece, é uma marca importante de alfajor e café da Argentina. Numa conversa o
dono perguntou se eu me interessava em trabalhar lá. Que simpatia. Falei que
ligava, mas com meu horário de aulas, fica impossível.
Ao terceiro dia resolvi colocar os pés para
cima. Ainda muito inchado, tirei o tempo do sábado para cuidar do pobrezinho.
Arnica pra lá, arnica pra cá, enfaixado. Ajudou e muito. A noite resolvi
aceitar o convite de uma amiga de uma amiga de minha mãe para jantar. Havia
conversado com a Marta Luñeda somente por e-mail. Parecia muito entusiasma em
me conhecer e me chamou para jantar em sua casa, em que chamaria outras de suas
amigas. Lá fui eu levando uma garrafa de vinho. Eis que chego ao destino e
conheço Marta. Figura excêntrica, quase louca (no bom sentido). A senhora
estava com mais três amigos em seu apartamento. Cuba foi o primeiro assunto. Meus
Deus, que difícil organizar tantas ideias diferentes em espanhol. O que era
para ser um abre alas, foi uma discussão calorosa entre os convidados.
Apaziguada, deu-se início a minha sabatina. Uma traulitada atrás da outra.
Dessas que dá vontade de voltar pra casa e desistir de tudo. Mas, bem, esse era
o terceiro dia, não podia esmorecer tão cedo. Sabendo que essa talvez fosse a
primeira de várias nesses dois anos, resolvi enfrentar. “Não, não falo tão bem
espanhol, mas fazendo aula, tudo pode melhorar”, “Não conheço esse filme, mas
tem um maravilhoso de tal pessoa”, e rios e mais risos. Por fim, deram um tempo
na pressão psicológica e desencanei. Comi, bebi, conversei, fiquei muda,
pensativa, ri mais um pouco e fui embora. No fim, salvaram-se todos. Marta me
levou à porta e foi um doce. Hastal luego, Martinha!
Ainda que frio, muito frio nesses dois últimos
dias, as manhãs estão lindas. Céu azul de fazer chorar de tão bonito. Fui
turistar. Conheci a Casa Rosada, sede da presidência. O primeiro andar já valeu
o passeio. Uma exposição permanente “Os Patriotas da América Latina”. Muita
história. De emocionar passar por cada uma das pessoas que ali estavam. Dom
Oscar Romero, Che Guevara, Evita Peron e o maridón, Pancho Villa etc. A
sensação é de pertencimento real na América Latina. E uma frustração de como
nos conhecemos tão pouco. E felicidade por ver tanta criança lá com os pais e
acompanhando animado o passeio.
Depois atravesse a rua e fui a Feira de San
Telmo. Achei parecido com todas as feiras
de artesanato que já fui. Vale o passeio, mas não me surpreendeu demais.
Foi dia de jogo do Boca. Vi os primeiro torcedores de longe. Vi não, ouvi.
Bombas, gritarias, quase um Maio de 68. Isso antes de começar o jogo. O Boca
ganhou, imagina como foi.
De lá fui ao bairro de Palermo de metrô. (Como
funciona e te leva para todos os lugares!!!). Lindo bairro, bom passeio. Vi um
grupo (!!!) de percussão chamado Bondi. Me perdi na rua Santa Fé –
literalmente. Ao fim, encontrei o que precisava encontrar e cheguei sã e salva. Fim
do dia, morri um pouco – de frio e cansaço. Meu pé, agradece.
Devo dizer que meu espanhol chegou lindo, mas
com cinco dias em Buenos Aires vejo que é horrendo. Nada tem a ver com o
espanhol que arranhava em Cuba. POr que, meu Deus, uma palavra como ayer é
pronunciada, achêr? Por que mayo é dito maxô? E se você fala como se escreve, é
como se estivesse falando Esperanto ou Mandarim. Não entendem.
Nesse quinto dia, andei a Calle Florida
inteira. Quanto brasileiro. O pessoal deve tá rico, só pode, pois Buenos Aires
não é tão barato como dizem. E mais um dia sem celular e sem casa. Mas com a inscrição da aula de espanhol feita e uma nova colega de classe. Pegue vários
endereços de restaurantes vegetarianos e lojas de produtos naturais. Obrigada!
Hahaha. E uma das melhores coisas dos dias: conversar com meus coleguinhas que
trabalham no albergue. Na nossa última rodinha conversamos sobre Pescado
Rabioso (Spinetta) – obrigada Argentina, obrigada irmão! E eles tocam Caetano
Veloso todos os dias. Sebastián cantou e tocou Cajuína inteira. Uma graça!
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