Buenos Aires, 29 de junho de 2011.
Solstício de inverno - fenômeno astronômico usado para marcar o início do inverno. Acontece normalmente por volta do dia 21 de Junho no Hemisfério sul e 22 de Dezembro no Hemisfério norte. Esta data também era de grande importância para diversas culturas antigas, que de um modo geral a associavam simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento. E assim, te sido.
Bom, o inverno chegou em Buenos Aires. Sigo para minha segunda estação aqui. E como é de praxe, faz frio. Aqui, um pouca mais frio. Então agasalho-me, tomo mate – faço isso agora com constância, algo como um litro e meio por dia. Essa é uma medida de principiante. Mas já me encanta.
Pouco antes do tão esperado inverno chegar, aproveitei os últimos dias de outono para me mudar de casa. Aceitei o convite do meu amigo Federico e fui morar por algum tempo em sua casa no lindo bairro de Boedo. E vivemos dias incríveis dividindo o mesmo teto. Fede é um querido, acolhedor e um coração imenso. Ensino “mineirês” todos os dias e é uma dificuldade um argentino entender os acentos do português, mas ele tem se dedicado. Já fala: “Cê tá bão?”. E viver em uma casa, ainda que temporariamente, já volto a cozinhar, preparar café da manhã, dar bom dia ao vizinho da casa ao lado. E tudo ganha outro gosto. E claro, ensino malas palavras também. Acho importante para enriquecer o vocabulário deles. Enquanto isso, minha professora de espanhol vai se surpreendendo com que tenho aprendido no cotidiano.
O tempo no hostel (albergue) era uma constante despedida. Todo dia uma cara nova, a tentativa de se comunicar em outra língua...ou não. Era dar tchau todos os dias. E conto: era uma sensação de turista ainda. E isso era agoniante. Sensação de alguma coisa de que ir, tinha que ter endereço para chegar carta, um pouso certo. Não ser transitório, temporário.
Com a despedida do outono, despedi também da minha tal bota ortopédica. Sim, sem o consentimento prévio do meu querido doutor Juan. Mas que logo saberá, pois pretendo visitá-lo essa semana ainda. Não brigue comigo. Já me sinto bem melhor, o pé direito já não dói mais e tenho que reconhecer que o frio e a intensa umidade (aqui a umidade chega a 90%), exalta qualquer coisa dorzinha escondida. É um fato. Então, agora a pessoa aqui segue para uma fisioterapia para deixar tudo nos trinques. E volta-se ao Piltates. Ah senhor Joseph, obrigada!
A vida porteña segue de vento em polpa. Mas em polpa que em vento. Cada dia é um perrengue para resolver, um planejamento para fazer. Mas vivo isso com um sabor mais doce que amargo – meu paladar aprecia os dois. Se me aborreço, não resolvo, então vamos com calma e perseverança.
Na última semana fui ao teatro com dois amigos, um mexicano e um colombiano. Experiência rica. Desencano e dale Maria a falar. A titulo de conhecimento, a peça era boa. De um assunto imensamente universal que são os relacionamento. Completamente entendível. Depois, uma pizza e uma festa. Fazia um frio de 1 grau. E assim tem sido a mistura: sair com a colega brasileira para um show, encontrar outros amigos, ir a casa de venezuelanos, comer Arepa (!) e tomar um trago de Rum, ver um toró cair e ir para casa. Uma observação fajuta: conversando com meu amigo colombiano, tenho a capacidade lhe perguntar “ah, e tem algum autor assim, importante da Colômbia, assim, que você possa citar”. Haha...ai que bobinha...”tem sim, Gabriel Garcia Marques.” Ri, fiz um chiste e mudei de assunto.
Aqui faço uma pergunta recorrentemente em minha cabeça: que ano é hoje? Isso porque coisas que já vi como “febre” há alguns (bons) anos, aqui é o auge agora. Mil pessoas com piercing na sobrancelha e/ou no lábio, e nas festas toca músicas como “Bom xibom, xibom, bombom!”. Fora que aqui tenho outra sensação diariamente: vejo nos metrôs, ruas, personagens, atores de novelas que já morreram. O rosto das pessoas quase sempre me é familiar. Um dos maiores prazeres aqui é tirar foto escondido. Já vi o Armando Bogus e o gordinho de Lost. Estou em outra dimensão. Eu não, Buenos Aires. Ao mesmo tempo que aqui é uma cidade enorme, uma metrópole, progressista etc e tal, as vezes tenho a sensação de estar em outra época. Impossível explicar. Eu queria ter uma máquina de escrever, uma câmera, alguma coisa para registrar a vida, os rostos das pessoas dentro do metrô. Juro!
Contei que outro dia vi o Rick Martin, né?! E contei que vi o Pino Solanas também? Seu comitê é enfrente ao hostel que eu estava. O vi fazendo campanha na rua – ele é candidato a prefeito de Buenos Aires. Foi um tanto quanto emocionante.
E viver aqui é ver um ônibus lotado às 2h da manhã. Os coletivos funcionam aqui a noite inteira, madrugada a fora. E as pessoas usam. Fácil ver as paradas de ônibus cheias às 3h da matina e o ônibus passar direto porque está cheio. O metrô não, pois esse fecha às 22h30. Uma pena.
Morar em Buenos Aires é ver uma manifestação todos os dias. Sim, todos os dias, alguma rua está fechada para manifestantes. E você se acostuma (ou não). Sejam servidores públicos reivindicando por melhores salários ou estudantes reivindicando melhores condições na estrutura da escola. Todos vão as ruas para protestar. Velho, jovem, mães, homens, crianças. Todos os dias, enfatizo mais uma vez.
E por falar em ir as ruas, impossível não falar sobre a primeira etapa do Campeonato Nacional chamado Nestor Kichner. Sim, o campeonato de futebol mais importante da Argentina leva o nome do ex presidente, que faleceu ano passado. Ele que era torcedor (hincha) do Racing. Bem, e um fato surpreende ocorreu e parou a cidade, o país, eu diria: a equipe do River Plate caiu para a segunda divisão, aqui, Nacional B. Isso pode acontecer com qualquer um, ora bolas. É trágico, mas assim, nada que nos tire dos trilhos, em alguns dias, nós, torcedores de outras equipes – lembrando que sou praticamente torcedora de todos os times com simpatia maior ou menor por algumas, mas isso é outro assunto. Mas os argentinos não é qualquer acontecimento. Em 110 anos de existência, o River nunca descendeu de divisão. Já esteve mal das pernas, mas nunca...NUNCA foi tão mal. Por isso a tragédia. Pela primeira vez em mais de um século não haverá um clássico entre Boca x River. E por isso tudo parou, as pessoas ou o torcedores selvagens quebraram tudo. Não vi nada de perto, mas era só os que os telejornais, periódicos, revistas davam e as pessoas falavam. Que Copa America que nada, o assunto era o River – que teve duas oportunidades para não ser rebaixado e não adiantou nada. E isso foi a alegria para muitos. Como os torcedores de outras equipes estão felizes. Como! Nada interessava mais. E no domingo da derradeira me alojei em casa. Meus amigos só me diziam “Não saia de casa hoje, Maria. E não uso por algum tempo qualquer roupa azul e amarela.” (Porque lembra as cores do Boca Juniors e isso poderia causar um mal estar nas ruas. Obs.: Já basta eu ter ido a um jogo do Vasco e Guarani no Maracanã vestida de verde, cor do time adversário – Guarani, no caso. Alexandre, me desculpa mais uma vez). Obedeci, não sou boba nem nada, fiquei quietinha. Então é isso: tchau River. Agora tente ser o melhor da série B...ou não, porque sou Atlanta e quero ver ele ganhar.
A saudade daí segue. Um pedaço sempre está presente para não deixar esquecer. Impossível esquecer. É carinho espalhado por essa Belo Horizonte e por esse mundão de meu Deus. Por hoje, vejo essa como minha terrinha. Assim tenho que fazer mesmo. Mas eu volto....um dia eu volto. E se quiser vir me visitar, os braços estão mais apertos que do Cristo Redentor.
No próximo domingo é aniversário do irmão. Mais uma Festa Julina. E o primeiro aniversário dele, que me lembre, que não passo junto com ele. Teté já passou quatro vezes o 3 de Julho sem a Maria. Mas por pura questão de tempo. Nasci no seu quarto inverno. E agora é agüentar a saudade, sentir o beijo e o abraço de longe e comemorá-lo daqui. Já pedi que os meninos daqui toquem no show Lamento do Morro em homenagem a ele. E falei com Cristina Fernandes Kischner que decrete feriado. Pedido atendido. Ninguém trabalha no domingo! Bem vindo ao mundo sempre, irmão!
E lembrando dele, lembro também que aqui as torças musicais seguem. Todos os dias cambiamos musicas. Conheci muita gente boa. De musica tradicional peruana ao último disco de uma banda islandesa. Charlie Garcia e Spinetta na veia. Viva o rock argentino.
Minha relação com o Brasil e com as coisas daí as vezes se exaltam. Durante algumas aulas vem um desejo imenso de dividir obras daí. O professor perguntou esses dias sobre quem nós brasileiros da sala julgávamos bons narradores, não importando o meio. Meus colegas insistiram para eu abrir a boca – sim, muitos ainda me acham tímida e muito séria. Fazer o que, né?! Continuando...aí quis falar do Fernando Sabina em Encontro Marcado, do Guimarães Rosa e da Sandra Kogut em Mutum, do Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho em Lavoura Arcaica (livro e filme), do Coutinho....enfim, me encorajei e falei meia dúzia de palavras. Ufa!
Bom, acabei me estendendo hoje. E por aí, como estão as coisas?_________________________________________________________________
Buenos Aires, 5 de junho de 2011.
é...um mês de vida em Buenos Aires. E definitivamente passa rápido. A rotina já me consome 65% do meu dia. As aulas de mestrado já não espantam tanto como na primeira semana. Um amigo aqui, outro acolá, discutindo sobre as aulas e a vida no café ao lado. O curso de espanhol segue de vento em polpa. Colegas queridos, professoras ótimas. E diariamente, sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia, tenho aprendido a viver em Buenos Aires. Minhas “aulas” com os amigos daqui deixam minhas professoras de cabelo em pé.
A vida aqui é de aventura delicada. Arriscar
é mudar o passo, equilibrar o peso das coisas, arriscar falar um pouco mais a
cada dia, andar, se perder e encontrar. Dançar certo num dia e aquietar-se no
outro.
O frio continua
(ontem a noite era de 6 graus), mas meu corpo parece ter se acostumado um
pouco. Já não me "mata", nem me prende em casa. Consigo enfrentar as
ruas. Cada dia é um passinho diferente...para o novo. Ando por outras calçadas,
arrisco novos trajetos e descubro mais uma coisa nova. Já tenho o melhor lugar
para comer empadas, já elegi meu restaurante diário e meu supermercado
predileto. A busca por uma casa permanece firme e forte. Não é tão fácil como
pensava, e talvez, mais difícil como haviam me dito quem por aqui passou. Mas
vamô que vamô e em breve acontecerá.
Comemorei com os
Argentinos, talvez a data mais especial para eles: o 25 de Maio. Foi nessa data
que em 1810, os argentinos botaram para correr os espanhóis. Talvez essa seja a
festa mais importante para eles. A avenida de Mayo é a mais enfeitada. Toda a
cidade e muitos carros estão com suas bandeiras, as pessoas com os broches e
por aí vai. Meu primeiro feriado na terra de San Martin. Um grande show
aconteceu na Praza de Mayo e um público gigante ficou até meia-noite, num frio,
aproveitando a comemoração. Locro, pastelitos são alguns dos comes tradicionais
do dia. Todos só falam nisso. Locro é algo como um guisado. E pastelito, é um
doce típico. Porém, só vi nesse dia mesmo. Foi interessante ver esse tipo de
celebração. Nunca tinha visto isso na vida. Faixas e mais faixas, muitos
uruguaios também, enfim, o país em festa.
Nesse um mês também
recebi minha primeira visita - Patrícia e Rosalva vieram e foi lindo! Batemos
perna até e encontramos curiosamente com um mineiro na sorveteria, e depois no
cemitério da Recoleta e depois da Praça das Nações Unidas. Por aqui, já
encontrei também amigos de amigos de BH, ainda não conheci Valeria e Norma
pessoalmente, conheci Lara, mais uma baiana (mais uma, porque no meu curso de
espanhol, tem mais dois)por aqui e que, claro, temos pelos menos meia dúzia de
pessoas em comum, que essas, por sua vez, estão espalhadas no mundo também.
Os casos (ora,
cômicos) se multiplicam todos os dias. Ontem, por exemplo, um tanto de coisa
escorregou das minhas mãos e o lugar que estava com um tanto de gringo, ninguém
me ajudou. E nessa hora, gritei em português “Ah que bom que todo ajuda!”.
Nesse momento, todos se levantaram e começaram a catar minhas coisas caídas.
Obvio que minha cara foi no chão, disparei a rir (por dentro) e vi que o
português pode ser universal. E outro caso, mais sério é: quando vierem para
cá, não digam cajetas (achando que
estão falando o diminutivo de caixas), acabô
(quando quiser que algo terminou) e tampouco chame uma mulher de gata. Ah, e não pergunte onde está uma
concha para pegar lentilhas ou o guisado. E meninas, saibam o que é um xamuchero.
Voltando. Ando levando mesmo uma vida portenha. Essa semana, por exemplo, fui ao hospital sozinha. Meu pé que deu uma zicada, foi levado ao médico para fazer uma consulta. Lá vamos nós. Deu pra conversar com o médico – meio sério no inicio. Fiz uma radiografia e o resultado: ligamentos ainda continuam fracos e de tanto eu andar e correr. Por isso algumas dorzinhas e a falta de firmeza. O frio e a umidade "agravam" a sensação de que ele pedia ajuda. Enfim, um antiinflamatório e uma bota ortopédica para imobilizar o dito cujo. Três semanas. Quase morri. Os olhos encheram d'água. “Não é possível. Como vou ficar andando com essa bota, tendo tanta coisa para fazer, casa para procurar, aulas para ir, escadas para subir, metrô para pegar?”, era só o que pensava. Mas por fim me acalmei. Tudo vai ficar bem. Dá para continuar minha vida normal. E a bota é para isso mesmo, o pé fica imobilizado, enquanto faço as coisas. E ainda bem que descobri a tempo, antes que virasse o pé mais uma dezena de vezes igual vinha acontecendo. Buenas, obrigada, Vida, mais uma vez. E uma das mágicas que acontecem nesse lugar. A bota aqui custa uma fortuna: 450 Pesos. Sebastian, o anjo, e que trabalha aqui, sabendo do meu caso, ligou para o irmão dele que trabalha com produtos ortopédicos. Conclusão: me emprestou a bota. E cá estou com meu novo acessório. E no fundo foi importante ter passado por essa lenga-lenga de hospital (sem gravidade) e me virar em outra língua. rs...
Os portenhos me surpreendem a cada dia. Amáveis na maioria do tempo. Já contei que um aqui já me apelidou de Tango? Porque me acha dramática. rs...vê se pode?! Eu me pergunto: como? Eles são os mais, os Reis.
Meu castelhano vai indo bem. Já começo a contar os causos em espanhol. E todos entendem. Coisas pequeninas, piadinhas, jeitos, e eles entendem. Dia desses fui explicar para o povo aqui a brincadeira que tinha no programa do Sérgio Malandro – em que a pessoa/criança, em uma cabine gritava sim ou não, em troca de um prêmio bom ou ruim. Hahaha.
Não, não vou
escrever em castelhano. Vamos nos ater a língua que nos é comum. Se por um lado
estou indo bem com a língua hispânica, com as dos ianques nem tanto. O mínimo
de inglês que sabia, hoje falo igual ao Tarzan. Não sei nada, não lembro o
passado de "speak". rs...uma maravilha. Meu cérebro só capta um
idioma por vez. Não me peça para falar três línguas de uma vez. Ou seja, o
albergue para mim é literalmente uma Torre de Babel. Well, me despeço por aqui.
Au revoir!
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