quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 27 de Setembro de 2011.


Buenos Aires, 27 de Setembro de 2011.

Eis que chego à minha terceira estação aqui. Finalmente chegou a Primavera. E conto a você que é impressionante como a paisagem já muda. A árvore em frente a minha casa, mais precisamente, que está justo em frente a janela da sala de casa, que parecia morta, todos os galhos secos, ela, que já não tinha muita cor, a não se os passarinhos que iam namorar lá todo dia, agora já começa a saltar ramos verdes. A natureza ali bem debaixo dos meus olhos. E assim estão as veredas – calçadas, cheias de árvores frondosas todas exibidas se mostrando lindas pra gente. E aí, você passa por uma das 987 praças que estão espalhadas por Buenos Aires, cheias de gente. Crianças correndo, velhinhos tomando sol, jovens se encontrando. O silêncio do inverno está indo embora. Eu que estava sedenta pelo calor, ainda observo de longe, sentindo a onda do clima, como dizem aqui.

Mas é uma beleza, hei de confessar. Talvez nada me deixa tão feliz quanto o sol. É bem sabido que sou uma calanga por natureza e se eu pudesse ficava aí, namoradinha com sol. Pois além de muito branca e a camada de ozônio não tá de brincadeira, a vida corre e eu passo de raspão do solão.

Há coisas para fazer. E meu luxo de ficar ali quietinha, adquirindo energia solar para o resto do dia, não passa de uns minutinhos durante o caminho rotineiro. Falo só mais um pouco da Primavera, prometo. Você precisa ver como ela é recebida aqui. Todos os lugares tem faixas de boas vindas, todas as pessoas ao primeiro dia já estão com flores nas mãos, sejam porque lhes deram, seja porque compraram em alguma floreria – detalhe para o fato de existirem muitas, muitas, floriculturas (que é chamada aqui de floreria) em todos os lugares. E digo mais: não é só agora não. Elas são várias e são como bancas, abertas 24 horas!!! E todos nesse dia lhe desejam “Feliz Primavera”, tal qual a celebração do Dia do Amigo. Pois bem, a dita cuja chegou, meio tímida, é verdade, pois no Segundo dia, já caiu a temperatura, 8 graus, choveu, e da-lhe tirar o casaco e a botinha do armário. 

Mas eis que já amanheceu um dia lindo, azul, e já vejo meus braços e pernas for a de casa novamente. E um convite para tomar uma caipirinha. Digo porque os portenhos acham que brasileiro toma caipirinha todo dia, até no café da manhã. Aí para te agradar ou sei lá o quê, falam de caipirinha, praia e queijo quente. Eu, dou corda.

Ainda que seja tão comemorada assim a nova estação, não vejo tanta felicidade assim da parte dos nativos. Ok que estamos recém primaverados e não posso ousar tirar uma conclusão tão séria como essa. Mas sinto que eles gostam do frio. Muito cá entre nós, tenho achado estranho não usar minha bota vermelha.

Dos hábitos que reforcei aqui, foi o de ler jornal todos os dias. Mas agora são quatro. Não saio de casa sem antes ler um par de notícias e ver a previsão do tempo. Dependendo do meu humor, me arrisco a ver meu horóscopo. E cavuco notícias, viu?! Ave Maria. E quando tenho a tarde livre, me arrisco a ver o noticiário. Não muito diferente das tardes televisas brasileiras, aqui tem notícia de morte, seqüestro, escandalos com famosos etc e tal. Na tv aberta aqui passa a TeleSur. Aproveitei o dia de folga na última semana e vi/ouví a participação de alguns presidentes na reunião da ONU. Hahahha…. Sabe que TeleSur tem sua base maior na Venezuela, né?! E haja informação do Hugo Chavez. Houve um ato ecumênico em Nova York, onde estavam várias pessoas, entre elas o presidente boliviano Evo Morales. E qual não foi a surpresa? Chavez ao telefone ao vivo participa do ato. E falou com fulano, com ciclano…um bafuá. Isso tudo dentro da igreja. Muy gracioso! Muito moderno. Mas achei bom demais o discurso da Cristina (Cris Kishner). Bom demais é um exagero. Mas ela falar que o Velho Continente precisa com urgência a saber lidar com a crise, sobretudo, financeira que têm passado, completando o discurso da Dilminha, dizendo que eles/nós, podemos ensinar muito, afinal, ô nós que vivemos crises. E uma tal lá dando conselhos para Argentinas, Brasil e afins. A mesma tal (pessoa que agora esqueci o nome) deu conselhos para Grécia no ano passado. Palmas!

Aqui as últimas repercussões foram a absolvição do Carlos Menen, ex presidente que respondia por o envolvimento com financiamento de armas e corrupção; uma mulher, que divorciada do marido há algum tempo, quer usar o semêm congelado dele para engravidar, ele a proibiu, pois não há motivos plausíveis e ele não quer filho com ela (!), a mulher recorreu e a justiça a autorizou a usar (mas tá quente o negócio, não se fala em outra coisa) e o Mundial de Rugby, que não me pergunte o que é. Soube há pouco que é um esporte e um êxito da Argentina. Entre outras coisas como o terrível acidente com o trem aqui no bairro de Flores. Foi imensamente terrível mesmo. Muito perto do campus que estudo.

Faz tempo que não escrevo, né?! Nem sei muito mais o que contar, o que é novo ou não. Bom, esse mês de Setembro foi comemorado o mês do Brasil na Argentina. Muita coisa passou por aqui. Entre ellas uma festa na rua. Fubá demais. Devia ter chamado Porto Seguro Day. Três bolinhas de pão de queijo, 10 Pesos! Baiana tomando mate e uma banda cantando a música que dizem ser uma das mais famosas do Brasil: “ô Mila”. Entre os festejos, houve dentro do Festival Internacional de Literatura de Buenos Aires homenagens/mesas sobre literatura brasileira. Me programei para ver as falavam de Machado de Assim, Guimarães Rosa e Clarice Lispector. Ah, mas queria muito saber o que os argentinos e os demais vizinhos de língua hispânicas tinham a dizer sobre escritores brasileiros muito singulares. Tomei a tarefa quase como guardiã. Haha… O fato é que depois que me mudei pra cá, percebi (mais) a importância da nossa língua e me dei conta da veneração que os argentinos tem pelo Brasil e sobretudo pela arte. Durante esses dois dias que estive lá no Festival, mais ainda. Vi o Grande Sertão Veredas traduzido. Ainda não o comprei, mas o paquerei, passei por páginas e curiosa em demasia, queria ver como fizeram para traduzir o intraduzível. Não tenho resposta ainda para dar, a não ser que eles explicam o que é Jagunço, e que virou Yagunzo. E foi interessante ver a sala cheia em um sábado a noite, gente de todas as idades e lugares, escutando análises e contos de Clarice Lispector. Feliz de mim!
E como não poderia deixar de ser, eis mais uma pérola dessa que vos escreve. Dentro do ônibus, eu e Julieta. Vejo um cartaz de uma festa que tinha um nome chamativo, amor alguma coisa, não lembro ao certo. Aí Juli diz: “Essa festa aconteça em um antigo prostíbulo”. Eu: “Igual a Casa Rosada?”. Obvio que com meu tom de voz. Pessoas se viram para ver quem conversava. Explico: Confundi Casa Rosada (a sede do governo Argentino) com Casa Rosa, anti puteiro de luxo no Rio de Janeiro, em Laranjeiras, que hoje é um lugar que acontece festas (ótimas) e como Juli já morou no Rio, sabia ao que me referia. Anfam, entre conchas, cajetas e Casa Rosada, salvaram-se todos.

Te mando um beijo. Feliz Primavera!

Maria

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