quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 30 de Abril de 2012.


Buenos Aires, 30 de Abril de 2012.

Há poucos dias de completar um ano de Buenos Aires. E já não caminho com o pé machucado, já não me confundo nas palavras e não falo ‘malas palabras’ sem saber. Já posso falar como são as quatro estações por aqui. Já tenho meus lugares preferidos, mas uma infinidade a conhecer. Meu número de telefone já sei de cor. Quero me desfazer de pelo menos 40 Kg coisas que tenho em malas, pois já conheço o clima e as roupas e objetos que uso. E cada dia mais sei que ‘menos é mais’. Em um ano já estou no meu quarto endereço e talvez me venha o quinto. Tenho amigos de infância nessa terra que me acolheu e me repeliu várias vezes.

Em um ano quero me apaixonar de novo por essa cidade. Depois do tempo de festa/férias no Brasil, foi como se tivesse revisto um amor antigo, Belo Horizonte, e isso fez balançar a estrutura do relacionamento que vinha tendo com a vida porteña. Certo que meu coração gosta mesmo é de amar. Mas paixão…essa dá e volta e revira. Aí é esperar para ver se a paixão vinga de novo. Mientras tanto, Buenos Aires é passível de enamorarse.

Um ano passa rápido. Mais outro ano passará tão rápido quanto. E a saudade serviu de alimento para Outono, Inverno, Primavera e Verão. E a tecnologia serviu para dificultar que a saudade seja sentimento maior. A distância vem também para se conhecer no meio de um mundo que não é seu e você no máximo é um passageiro disso tudo. Mudar ajuda a organizar essa bagunça que pode ser sua cabeça e colocar a prova que cozinhar, lavar vasilha e estar sozinha são ótimas terapias. Aqui, descobri que solidão é coisa que se pode optar. Foram poucos os tempos de solidão, e estar sozinha as vezes é uma maravilha.

Estar há um ano por aqui me deixou mais paciente. A convivência com pessoas com outras criações, outras culturas, outros tudo, te deixam mansa e forte. Você aprende que não pode dar um cutucão quem está ao seu lado comendo de boca aberta. E sabe que se não conseguir ficar quietinha, na sua, é possível se se concentra e abstrair. E que quando alguma coisa não dá, não dá. E que mesmo assim perseverança se consegue sem se fazer estrondos.

E nesses 12 meses uma paixão virou amor. Luis Alberto Spinetta me arrebatou. O conheci pelas mãos do meu irmão, que uma vez mais me presenteou com a música, no caso, esse argentino, que quando me apresentou, não fazia ideia teria um dia uma vida nesse lado de cá. E o escutei aqui com uma constância tamanha que me deixou mais feliz quando a melancolia e a alegria me visitaram. O vi em programas de televisão, o escutei com amigos daqui em dias de pura música quando nos encontramos para escutar discos e eles tocavam para mim notas e cantavam melodias do “Flaco”, como Spinetta é carinhosamente chamado aqui. E quando eu estava aí em fevereiro, esse muchacho de ojos de papel se foi e me despedi dele como se fosse um amigo próximo, com uma tristeza parecida. Ontem fui à um show do Pedro Aznar em homenagem ao Spinetta. A avenida Sarmiento com 50 mil pessoas era puro silêncio.

Emocionante. E iluminou aquela noite, quando eu já era da cidade e gritei junto com os meus agradecendo a presença do Flaco nessa vida. E assim vivo já o frio úmido de Buenos Aires, que me esquenta em momentos como esse. Te deixo uma música que me convidou ao amor e me faz tentantiva de repaixonar.

“Ya lo estoy queriendo. Ya me estoy volviendo canción...”

Bitocas minhas.

Maria

y
http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=-6tGDgkzHb8

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