quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 2 de julho de 2011.


Buenos Aires, 2 de julho de 2011.

Solstício de inverno - fenômeno astronômico usado para marcar o início do inverno. Acontece normalmente por volta do dia 21 de Junho no Hemisfério sul e 22 de Dezembro no Hemisfério norte. Esta data também era de grande importância para diversas culturas antigas, que de um modo geral a associavam simbolicamente a aspectos como o nascimento ou renascimento. E assim, te sido.

Bom, o inverno chegou em Buenos Aires. Sim, faz frio. Hoje acho que chegamos a 1 grau e a sensação térmica de menos 3 pelo menos. Os jornais daqui dão que o risco de neve existe para os próximos dias. A ver. Sigo para minha segunda estação aqui. E da-lhe mate para esquentar...sim, adquiri um novo hábito. Algo como um litro e meio por dia. Essa é uma medida de principiante.

O tempo no hostel (albergue) se foi. Vive lá foi importante, chato, bom e uma constante despedida. Todo dia uma cara nova, a tentativa de se comunicar em outra língua...ou não. Era dar tchau todos os dias. E conto: era uma sensação de turista ainda. E isso era agonizante. Sensação de alguma coisa de querer ir, ter endereço para chegar carta, um pouso certo. Não ser transitório, temporário.  Embora tudo nessa vida de meu Deus seja.
Pouco antes do tão esperado inverno chegar, aproveitei os últimos dias de outono para me mudar de casa. Aceitei o convite do meu amigo Federico e fui morar com ele por algum tempo. E viver em uma casa, ainda que temporariamente, já volto a cozinhar, preparar café da manhã, dar bom dia ao vizinho da casa ao lado. E tudo ganha outro gosto.  E agora, malas prontas de novo. Me mudo para uma casa para chamar de minha. Em Belgrano vou morar com Julieta, una chica de Córdoba.

Nesse período de vida porteña, já ensino malas palavras também. Acho importante para enriquecer o vocabulário dos meus amigos de cá que anseiam aprender português. Enquanto isso, minha professora de espanhol vai se surpreendendo com que tenho aprendido no cotidiano nas “ruas”.

Com a despedida do outono, despedi também da minha tal bota ortopédica. Já me sinto bem melhor, o pé direito já não dói mais e tenho que me acostumar de que o frio e a intensa umidade (aqui a umidade chega a 90%), exalta qualquer dorzinha escondida. É um fato.  Agora é voltar para o ensaios de sapateado, pois o show tem que continuar.

A vida porteña segue de vento em polpa. Mas em polpa que em vento. Cada dia é um perrengue para resolver, um planejamento para fazer. Mas vivo isso com um sabor mais doce que amargo – meu paladar aprecia os dois. Se me aborreço, não resolvo, então vamos com calma e perseverança.

Na última semana fui ao teatro com dois amigos, um mexicano e um colombiano. Experiência rica. Desencanei e dale Maria a falar. A título de conhecimento, a peça era boa. De um assunto imensamente universal que são os relacionamentos amorosos. Haha...o negócio é igualzinho no mundo inteiro no final das contas. Depois, uma pizza e uma festa. E assim tem sido a mistura: sair com a colega brasileira para um show, encontrar outros amigos de Belo Horizonte, ir a casa de venezuelanos, comer Arepa (!) e tomar um trago de Rum, ver um toró cair e ir para casa.  Uma observação fajuta: conversando com meu amigo colombiano, tenho a capacidade lhe perguntar “ah, e tem algum autor assim, importante da Colômbia, assim, que você possa citar”. Haha...ai que bobinha...”tem sim, Gabriel Garcia Marques.” Ri, fiz um chiste e mudei de assunto.

Aqui faço uma pergunta recorrentemente em minha cabeça: que ano é hoje? Isso porque coisas que já vi como “febre” há alguns (bons) anos, aqui é o auge agora. Mil pessoas com piercing na sobrancelha e/ou no lábio, e nas festas toca músicas como “Bom xibom, xibom, bombom!”. Fora que aqui tenho outra sensação diariamente: vejo nos metrôs, ruas, personagens, atores de novelas que já morreram. O rosto das pessoas quase sempre me é familiar. Tenho certeza que muita gente famosa que “morreu” está escondida aqui. Já vi o Armando Bogus, Francisco Milani, Dercy Gonçalves e até o gordinho de Lost. Estou em outra dimensão. Eu não, Buenos Aires. Ao mesmo tempo que aqui é uma cidade enorme, uma metrópole, progressista etc e tal, as vezes tenho a sensação de estar em outra época. Impossível explicar. Eu queria ter uma máquina de escrever, uma câmera (me aventuro tirando fotos escondida), alguma coisa para registrar a vida, os rostos das pessoas dentro do metrô. Juro!

Contei que outro dia vi o Rick Martin, né?! E contei que vi o Pino Solanas também? Pois bem, o vi. Seu comitê é enfrente ao hostel que eu estava. O vi fazendo campanha na rua – ele é candidato a prefeito de Buenos Aires.  Foi um tanto quanto emocionante.

E viver aqui é ver um ônibus lotado às 2h da manhã. Os coletivos funcionam a noite inteira, madrugada a fora. E as pessoas usam. Fácil ver as paradas de ônibus cheias às 3h da matina e o ônibus passar direto porque está cheio. O metrô não, pois esse fecha às 22h30. Uma pena.

Morar em Buenos Aires é ver uma manifestação todos os dias. Sim, todos os dias, alguma rua está fechada para manifestantes. E você se acostuma (ou não). Sejam servidores públicos reivindicando por melhores salários ou estudantes reivindicando melhores condições na estrutura da escola. Todos vão as ruas para protestar. Velho, jovem, mães, homens, crianças. Todos os dias, enfatizo mais uma vez.

E por falar em ir as ruas, impossível não falar sobre a primeira etapa do Campeonato Nacional chamado Nestor Kichner. Sim, o campeonato de futebol mais importante da Argentina leva o nome do ex presidente, que faleceu ano passado.  Ele que era torcedor (hincha) do Racing. Bem, e um fato surpreende ocorreu e parou a cidade, o país, eu diria: a equipe do River Plate caiu para a segunda divisão, aqui, Nacional B. Isso pode acontecer com qualquer um, ora bolas. É trágico, mas assim, nada que nos tire dos trilhos, em alguns dias, nós, torcedores de outras equipes – lembrando que sou praticamente torcedora de todos os times com simpatia maior ou menor por algumas, mas isso é outro assunto. Mas os argentinos não é qualquer acontecimento.  Em 110 anos de existência, o River nunca descendeu de divisão. Já esteve mal das pernas, mas nunca...NUNCA foi tão mal. Por isso a tragédia. Pela primeira vez em mais de um século não haverá um clássico entre Boca x River. E por isso tudo parou, as pessoas ou o torcedores selvagens quebraram tudo. Não vi nada de perto, mas era só os que os telejornais, periódicos, revistas davam e as pessoas falavam. Que Copa América que nada, o assunto era o River – que teve duas oportunidades para não ser rebaixado e não adiantou nada. E isso foi a alegria para muitos. Como os torcedores de outras equipes estão felizes. Como! Nada interessava mais.  E no domingo da derradeira me alojei em casa. Meus amigos só me diziam “Não saia de casa hoje, Maria. E não uso por algum tempo qualquer roupa azul e amarela.” (Porque lembra as cores do Boca Juniors e isso poderia causar um mal estar nas ruas. Obs.: Já basta eu ter ido a um jogo do Vasco e Guarani no Maracanã vestida de verde, cor do time adversário – Guarani, no caso. Alexandre, me desculpa mais uma vez). Obedeci, não sou boba nem nada, fiquei quietinha. Então é isso: tchau River. Agora tente ser o melhor da série B...ou não, porque sou Atlanta e quero ver ele ganhar.

A saudade daí segue. Um pedaço sempre está presente para não deixar esquecer. Impossível esquecer. É carinho espalhado por essa Belo Horizonte e por esse mundão de meu Deus. Por hoje, vejo essa aqui como minha terrinha. Assim tenho que fazer mesmo. Mas eu volto....um dia eu volto. E se quiser vir me visitar, os braços estão mais apertos que do Cristo Redentor.

No próximo domingo é aniversário do irmão. Mais uma Festa Julina. E o primeiro aniversário dele, que me lembre, que não passo junto com ele. Teté já passou quatro vezes o 3 de Julho sem a Maria. Mas por pura questão de tempo. Nasci no seu quarto inverno. E agora é agüentar a saudade, sentir o beijo e o abraço de longe e comemorá-lo daqui.  Já pedi que os meninos daqui toquem no show Lamento do Morro em homenagem a ele. E falei com Cristina Fernandes Kischner que decrete feriado. Pedido atendido. Ninguém trabalha no domingo! Bem vindo ao mundo (sempre), irmão! Feliz novo ano!

E lembrando dele, lembro também que aqui as forças musicais seguem. Todos os dias cambiamos músicas com os amigos. Assim já conheci muita gente boa. De música tradicional peruana ao último disco de uma banda islandesa. Charlie Garcia e Spinetta na veia. Viva o rock argentino.

Minha relação com o Brasil e com as coisas daí as vezes se exaltam. Durante algumas aulas vem um desejo imenso de dividir obras daí. O professor perguntou esses dias sobre quem nós brasileiros da sala julgávamos bons narradores, não importando o meio. Meus colegas insistiram para eu abrir a boca – sim, muitos ainda me acham tímida e muito séria. Fazer o que, né?! Continuando...aí quis falar  do Fernando Sabina em Encontro Marcado, do Guimarães Rosa e da Sandra Kogut em Mutum, do Raduan Nassar e Luiz Fernando Carvalho em Lavoura Arcaica (livro e filme), do Coutinho....enfim, me encorajei e falei meia dúzia de palavras. Ufa!

Bom, acabei me estendendo hoje. E por aí, como estão as coisas?

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