Buenos Aires, Março de 2012.
Bom, essa carta foi tecida por alguns dias. E
enfim, escrever é isso também: costurar…mesmo quando nos falta a linha ou a
agulha. Hoje já não escrevo mais do chão do quarto, como no início dessa
jornada. Passados quase 11 meses de vida do lado de cá, muita coisa mudou. E
vai mudando mesmo. E muda também porque na trajetória vim e fui. Depois de tudo
– ou quase tudo que te contei sobre os olhares de viver aqui, há um sentimento
que não sei se alcança a palavra.
Quando cheguei, bem como você já sabe, era frio
naquela época, eu era “sozinha” e escrever era uma ótima companhia. Cheguei
aqui em Buenos Aires dessa vez no início do mês, pela terceira vez. E dessa vez
fazia muito calor, já tinha o endereço certo e o melhor caminho traçado para
levar as malas o mais rápido. E já não escrevo mais sentada no chão. De todas
as vezes essa foi a viagem mais tranqüila. Em poucas horas – de SP à BsAs foram
duas horas e meia e eu estava na capital argentina. E com um espanhol capenga
depois de dois meses de férias falando nosso dialeto mineirês. Com esse
castelhano entrei no taxi e pedi pra seguir ao meu endereço. Taxista é uma
classe que gosta de conversar, né?! E tratando-se de Buenos Aires vale a regra
que não se deve falar muito quando se é estrangeiro. Sem generalizações, juro.
Nesse caso, mesmo podre de cansada e sem muita vontade de conversar, fui estreitando
o laço com o motorista e deixando claro que eu vivia aqui para que não me
passasse a perna. Salientei que meu espanhol estava “hecho mierda”. Muito
educado me diz que estava mais portenha que brasileira. Mentira. Com a cara
queimada de sol e o sotaque duro, eu podia ser tudo, menos portenha. Enfim,
Rubens e eu fomos conversando até a porta de casa. E mesmo quando tudo lhe
parece estranho – afinal voltar depois de meses de férias (intensas) é
estranho.
Entro em casa e lá estava Charlie, namorado
francês de Julieta. Ele que morava no Brasil e falava um português raro, me
recebeu falando espanhol, ainda raro, e me apresentou ao seu amigo no Skype (em
francês). Ou seja, não bastasse eu chegando “meio perdida”, sou recebida em
casa em francês. Julieta chega algum tempo depois e começa a falar em inglês
com o francês. Fiquei tonta e resolvi ir desfazer a mala no quarto.
Por aqui, não sei ainda ao certo se em Buenos
Aires ou dentro de mim, as coisas soam estranhas. Está diferente a volta, as
árvores e o céu não são mais os mesmos. E talvez não seja eu mesma nesse lugar.
Algumas coisas chegam para mudar, né?! . E por mais que possa parecer, eu não
sou a melhor das pessoas paras mudanças.. Um dia achei que fosse. Mas custa.
Custa uma saudade, custa um coração amanhecendo meio capenga, meio apertado.
Custa uma tarde de céu nublado mesmo quando o sol arde. Arde e nubla dentro.
Algumas coisas vão mudando aqui. Já há a possibilidade de uma nova casa, de um
novo trabalho, projetos que vêem e brindam essa nova trilha. E aí a saudade vai esmorecendo, o dia vai ficando mais lindo, o espanhol saí com mais facilidade,
as conversas no ônibus voltam a ter som. Organizar as coisas por aqui,
significa agora, deixar um pouco de lado os últimos dois meses aí. Que sim, foram
lindos e não se engane, está tipo tatuagem. Tudo sempre estará à flor da pele.
E seguir por acá não é o mesmo que esquecer. É só mesmo dar espaço. Aí tudo vai
se ajeitando.
E aí me vejo no reencontros, os amigos que te
esperam, os novos projetos que “te põe pilha”. E um deles queria te contar.
Desses encontros que só a vida, num mistério profunda te dá, resolvemos fazer
dele um coletivo. Um coletivo de gente que se juntou aqui. E aí que vamos
juntar o trabalho de cada um fazer um negócio. Vai que chega aí um convite em
breve. Vai que…E desses intercâmbios, sugeri que começássemos a ver um filme
uma vez por semana. Um filme de cada país que nos gerou. E aí que hoje, fomos
ver Mutum. Além de querer muito rever esse filme – faz uns quatro anos que o vi
pela primeira vez no cinema, me instigou uma curiosidade da legenda em espanhol
e a reação do povo. E aí que é isso, é redundante. Sentimento é universal. Pode
ser filmado em um lugarejo sertanejo, perdido no meio do mundo, que ali vai ter
uma história que te arrebatar. E eu chorei de novo com o encontro, com o Thiago
e com o Campo Geral. Foi lindo dividir com os amigos mexicanos, colombianos,
argentinos isso.
Comecei a escrever essa carta no segundo dia da
chegada. Talvez seja uma das únicas cartas que escrevo por partes. A chuva deu
o ar da graça na segunda-feira. Molhou o Março que molha geralmente molha aí. E
hoje, já com duas semanas quase de ‘retomada’, a correria já existe e me dá uma
pausa para vim te contar um bocadinho das coisas do lado de cá. Vou daqui
esperando a próxima manifestação em alguma rua e te escrever a próxima carta.
Saudade.
Maria
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