quarta-feira, 2 de maio de 2012

Buenos Aires, 5 de Novembro de 2011.


Buenos Aires, 5 de Novembro de 2011.

Dias de calor. Começar a sexta carta falando do clima é quase obvio. Mas, desculpa, é inevitável. Ontem choveu a beça, no entanto reconhecia a chuva: daquelas que anunciam o dia ensolarado do dia seguinte. Eis que! E assim foi recebido meus seis meses de vida portenha. Sim, inacreditável, né?! Lá se vai um semestre, meio ano de vida aqui. A verdade é que esses seis meses foram mais para você que para mim. Confesso que desde novembro do ano passado sabia da possibilidade da minha vinda. Arrumando “as caixas de cartas”, vi que há um ano mais ou menos recebi a tal mensagem falando do mestrado que hoje faço. E no dia que me dei conta e quis me inscrever, andei por Belo Horizonte quase com um tom de despedida. Fui a pé do trabalho ao outro lado leste da cidade – de sul a leste, olhando cada rua, estrela, janela, rua, cruzamentos, as pessoas, tudo, como “humm, talvez fique um tempo sem ver tudo isso!”. A verdade que o belo horizonte não saiu de mim, ainda que sinta um bom ar, minhas Gerais não escapuliu dos meus olhos. Assim como você que por aí estão. E agora, escrevo essas linhas com a audácia, escutando Nara cantando en castellano. E aí te conto como foram os dias últimos.

Bom, que Buenos Aires tem pelo menos uma manifestação por dia, isso todo mundo já sabe. Eu passo por algumas toda semana. No entanto, eu participei de duas muito importantes no último mês. Sem muito planejar, cruzei por elas. E entrei. Éramos eu e meu pai, ele que junto a minha mãe, me apresentou e nos levou, eu e meu irmão, para as primeiras aglomerações políticas da minha vida. Desde que me entendo por gente estive em uma. Desta vez, éramos nós dois, pai e filha na capital argentina, passeando e por “razão” dos cosmos, estávamos no lugar certo, na hora certa. A primeira, um ato por um ano da morte do estudante Mariano Ferreira. Um argentino que foi morto durante a reivindicação junto a classe ferroviária e foi baleado. Cerca de 200 mil pessoas avançavam em marcha a avenida de Mayo. Gritos e cantos por justiça fortalecia a manifestação. Eram diferentes grupos sociais. Estudantes, professores, médicos, trabalhadores de áreas distintas. Um dia te mostro o vídeo que fiz.

O segundo evento foi a comemoração por a reeleição da Cristina Fernandes de Kishner. Eram milhares de pessoas, jovens, crianças, pais e mães com seus bebes e idosos. Hora cantavam o nome de Cristina, outra, o nome de Néstor, que morreu há um ano. Mais uma vez emocionante. Eu e meu pai no meio da multidão compartilhando mais um momento político marcante. Muitas bandeiras. Um pronunciamento que eu cantei junto com meus "novos compatriotas". Que Deus nos proteja! Que Nossa Senhora da América Latina esteja com a gente!

E vestida disso tudo, fui continuar no dia seguinte, meu processo de legalização. Por Deus, quanto boliviano, paraguaio, peruano. Quanta cara de índio. Horas e horas, todos esperando o mesmo. Ali, entendi que definitivamente, Buenos Aires é a capital da América Latina. Nós, Brasil, somos maior e agora mais poderosos que nunca, mas por questão do idioma, Buenos Aires é destino para aqueles acreditam em uma oportunidade “melhor” na vida. Ponto máximo talvez seja a educação que seja um convite tentador, já que escola e universidade é gratuita. Entre mil e uma contradições, nós, aqui estamos.

São seis meses e algumas vezes tenho a sensação de sempre ter estado aqui. Não fosse pelo fato da sensação/sentimento que tenho todos os dias, de curiosidade, de olhar pela vigésima vez uma paisagem e ainda sim ela me parecer muito nova, não diria que são mais de 300 dias aqui. Ah, o sono e o despertar também são confortáveis. Mas todos os dias, TODOS, quando saio a rua (ou escuto meus vizinhos brigando já de manhã), penso: “é mesmo, estou na Argentina!”.

Aqui tenho levado a ferro e fogo a mineiridade. Sabe aqueles nossos almoços em casa, em que a gente só sai da mesa às nove da noite?! São assim. Convido os amigos para vir em casa e vamos de cachaça, aperitivo, almoço, Sobremesa, café, conversa, risos, música, café, biscoitinho… e aí meus oim enchem d’água: não tinha broa de fubá!

Lembra da banda que mandei a música na última carta? Pois bem, fui ao show deles essa semana. Onda Vaga. Incrível! Ah e vi dois filmes argentinos interessantes: El Estudiante e Medianeras. Cada um especial a sua maneira. Se der, os veja. E a vida tem sido assim, de estudos – uma sorte estudar teatro e cinema que esses são sempre meus “deveres de casa”. E aí gente aproveita um dia lindo e vai para a praça ler e tomar mate. Ou não, vai ver a cidade de uma terraza diferente. E aí, encanto vai, encanto vem. E em mais um piscar de olhos, passa mais uma semana, um mês, um ano. E mais num piscar de olhos a saudade vai virar abraço e beijo.

Maria

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