Buenos Aires,
5 de Novembro de 2011.
Dias de calor. Começar a sexta carta falando do clima é quase
obvio. Mas, desculpa, é inevitável. Ontem choveu a beça, no entanto reconhecia
a chuva: daquelas que anunciam o dia ensolarado do dia seguinte. Eis que! E
assim foi recebido meus seis meses de vida portenha. Sim, inacreditável, né?!
Lá se vai um semestre, meio ano de vida aqui. A verdade é que esses seis meses
foram mais para você que para mim. Confesso que desde novembro do ano passado
sabia da possibilidade da minha vinda. Arrumando “as caixas de cartas”, vi que
há um ano mais ou menos recebi a tal mensagem falando do mestrado que hoje
faço. E no dia que me dei conta e quis me inscrever, andei por Belo Horizonte
quase com um tom de despedida. Fui a pé do trabalho ao outro lado leste da
cidade – de sul a leste, olhando cada rua, estrela, janela, rua, cruzamentos,
as pessoas, tudo, como “humm, talvez fique um tempo sem ver tudo isso!”. A
verdade que o belo horizonte não saiu de mim, ainda que sinta um bom ar, minhas
Gerais não escapuliu dos meus olhos. Assim como você que por aí estão. E agora,
escrevo essas linhas com a audácia, escutando Nara cantando en castellano. E aí
te conto como foram os dias últimos.
Bom, que Buenos Aires tem pelo menos uma manifestação por dia,
isso todo mundo já sabe. Eu passo por algumas toda semana. No entanto, eu
participei de duas muito importantes no último mês. Sem muito planejar, cruzei
por elas. E entrei. Éramos eu e meu pai, ele que junto a minha mãe, me
apresentou e nos levou, eu e meu irmão, para as primeiras aglomerações
políticas da minha vida. Desde que me entendo por gente estive em uma. Desta
vez, éramos nós dois, pai e filha na capital argentina, passeando e por “razão”
dos cosmos, estávamos no lugar certo, na hora certa. A primeira, um ato por um
ano da morte do estudante Mariano Ferreira. Um argentino que foi morto durante
a reivindicação junto a classe ferroviária e foi baleado. Cerca de 200 mil
pessoas avançavam em marcha a avenida de Mayo. Gritos e cantos por justiça
fortalecia a manifestação. Eram diferentes grupos sociais. Estudantes,
professores, médicos, trabalhadores de áreas distintas. Um dia te mostro o
vídeo que fiz.
O segundo evento foi a comemoração por a reeleição da Cristina
Fernandes de Kishner. Eram milhares de pessoas, jovens, crianças, pais e mães
com seus bebes e idosos. Hora cantavam o nome de Cristina, outra, o nome de
Néstor, que morreu há um ano. Mais uma vez emocionante. Eu e meu pai no meio da
multidão compartilhando mais um momento político marcante. Muitas bandeiras. Um
pronunciamento que eu cantei junto com meus "novos compatriotas". Que
Deus nos proteja! Que Nossa Senhora da América Latina esteja com a gente!
E vestida disso tudo, fui continuar no dia seguinte, meu
processo de legalização. Por Deus, quanto boliviano, paraguaio, peruano. Quanta
cara de índio. Horas e horas, todos esperando o mesmo. Ali, entendi que
definitivamente, Buenos Aires é a capital da América Latina. Nós, Brasil, somos
maior e agora mais poderosos que nunca, mas por questão do idioma, Buenos Aires
é destino para aqueles acreditam em uma oportunidade “melhor” na vida. Ponto
máximo talvez seja a educação que seja um convite tentador, já que escola e
universidade é gratuita. Entre mil e uma contradições, nós, aqui estamos.
São seis
meses e algumas vezes tenho a sensação de sempre ter estado aqui. Não fosse
pelo fato da sensação/sentimento que tenho todos os dias, de curiosidade, de
olhar pela vigésima vez uma paisagem e ainda sim ela me parecer muito nova, não
diria que são mais de 300 dias aqui. Ah, o sono e o despertar também são confortáveis. Mas todos os dias, TODOS, quando saio a rua (ou escuto meus
vizinhos brigando já de manhã), penso: “é mesmo, estou na Argentina!”.
Aqui tenho
levado a ferro e fogo a mineiridade. Sabe aqueles nossos almoços em casa, em
que a gente só sai da mesa às nove da noite?! São assim. Convido os amigos para
vir em casa e vamos de cachaça, aperitivo, almoço, Sobremesa, café, conversa,
risos, música, café, biscoitinho… e aí meus oim enchem d’água: não tinha broa
de fubá!
Lembra da
banda que mandei a música na última carta? Pois bem, fui ao show deles essa
semana. Onda Vaga. Incrível! Ah e vi dois filmes argentinos interessantes: El
Estudiante e Medianeras. Cada um especial a sua maneira. Se der, os veja. E a
vida tem sido assim, de estudos – uma sorte estudar teatro e cinema que esses
são sempre meus “deveres de casa”. E aí gente aproveita um dia lindo e vai para
a praça ler e tomar mate. Ou não, vai ver a cidade de uma terraza diferente. E
aí, encanto vai, encanto vem. E em mais um piscar de olhos, passa mais uma
semana, um mês, um ano. E mais num piscar de olhos a saudade vai virar abraço e
beijo.
Maria
Nenhum comentário:
Postar um comentário